quarta-feira, 24 de março de 2021

Sob pressão, Bolsonaro se reúne com governadores para discutir agravamento da pandemia

 







EL PAIS

Nos últimos 12 meses, o presidente Jair Bolsonaro agiu de diversas maneiras para dificultar o controle da pandemia de coronavírus no país. Negou sua gravidade. Ignorou ofertas de negociações de vacinas. E viu seu ministro da Saúde ser investigado por omissão. Teve como barreira um Congresso Nacional que não atuou contra o Planalto. Mas quando o Brasil se tornou o epicentro da doença, com 298.676 óbitos e mais de 12,1 milhões de infectados, e quando economistas e banqueiros começaram a cobrá-lo publicamente, ele decidiu agir e ensaiar uma nova conduta. Nesta quarta-feira, tentará dar um verniz de liderança que nunca exerceu, de fato, ao coordenar uma reunião com representantes de todos os poderes e de governos estaduais. Diante de tudo que o presidente fala e faz, deve ser mais uma ação para acalmar os ânimos do que uma mudança de rumo.



O Planalto chamou para o encontro os presidentes do Supremo Tribunal Federal, da Câmara dos Deputados, do Senado Federal e apenas seis dos 27 governadores do Brasil. Será uma espécie de confraria entre chefes de Executivos estaduais, já que no grupo somente um dos governadores convidados, Renan Filho (MDB-AL), não é um bolsonarista-raiz. Os outros todos costumam apoiar a maioria das pautas do presidente, são eles: Romeu Zema (NOVO-MG), Ronaldo Caiado (DEM-GO), Wilson Lima (PSC-AM), Ratinho Júnior (PSD-PR) e Coronel Marcos Rocha (PSL-RO).


Oficialmente, a reunião com um número limitado de governadores ocorrerá atendendo um representante de cada região brasileira. Ainda que a região Norte tenha dois, os governadores do Amazonas e de Rondônia. Na prática, o presidente e seu entorno querem evitar que ele seja alvo de críticas, como a que ocorreu um ano atrás quando o governador João Doria (PSDB-SP) cobrou liderança de Bolsonaro e gerou um debate acalorado entre os dois antigos aliados. Naquela ocasião, o tucano disse ao presidente: “O senhor, como presidente da República, tem que dar o exemplo. E tem que ser o mandatário para comandar, para dirigir, para liderar o país e não para dividi-lo”.


A ausência dos opositores foi motivo de queixa no Parlamento. “Não adianta chamar apenas os governadores aliados ou de regiões específicas. Cada Estado tem suas peculiaridades. As medidas de enfrentamento ao coronavírus exigem o Estado brasileiro na sua totalidade”, afirmou o líder da minoria no Senado, Jean Paul Prates (PT-RN).


Dois governadores que hoje fazem oposição ao presidente, um do Nordeste e outro do Sul, relataram ao EL PAÍS, que nem esperavam o convite de Bolsonaro e que preferem agir conforme orientações de suas equipes, já que não dá para contar com o presidente. “Essa reunião não terá efeito prático. Se tiver um resultado positivo, serei o primeiro a aplaudir a iniciativa, mas não vejo perspectivas. Como o ditado popular diz: deste mato não sai coelho. É mais uma ação para inglês ver”, afirmou Prates.


Posse ‘secreta’ de Queiroga

O encontro, a portas fechadas no Palácio da Alvorada, tem o objetivo de mostrar alguma coordenação nacional no controle da pandemia e êxito na campanha de vacinação. A reunião ocorrerá um dia após ele fazer um pronunciamento oficial no qual fingiu nunca ter criticado as farmacêuticas que produzem os imunizantes. O cenário inteiro, no entanto, é caótico. Na terça-feira, o presidente empossou sigilosamente seu novo ministro da Saúde, o médico Marcelo Queiroga. A cerimônia ocorreu de maneira discreta, no gabinete presidencial e não constava da agenda do mandatário. A posse só ocorreu depois que a base parlamentar do presidente passou a cobrá-lo e a pedir que, se o novo ministro não assumisse oficialmente logo, deveria escolher outro nome para a pasta, de preferência um político do Centrão, o grupo de centro-direita que sustenta o presidente na Câmara. Há dias se arrastava o limbo no ministério mais estratégico do Brasil da pandemia, com um ministro demissionário na cadeira, o general Eduardo Pazuello, e outro à espera de poder tomar as rédeas da pasta.


Derrotas judiciais e movimentação no Congresso

A reunião com os governadores e membros do Judiciário acontece também após uma derrota judicial na questão no Supremo Tribunal Federal nesta terça-feira. Pela manhã, o ministro Marco Aurélio Mello negou um pedido feito pelo presidente para derrubar decretos de lockdown firmados pelos governos do Rio Grande do Sul, da Bahia e do Distrito Federal. Ele entendeu que cabe a todos os entes federativos ―União, Estados e municípios― agirem no controle da pandemia, como já havia decidido o próprio Supremo no ano passado. O decano do Judiciário ainda mandou um recado ao presidente. “Ante os ares democráticos vivenciados, impróprio, a todos os títulos, é a visão totalitária. Ao presidente da República cabe a liderança maior, a coordenação de esforços visando o bem-estar dos brasileiros”, declarou.


Nos outros poderes, também se intensificou uma movimentação para tentar mostrar que estão atuando e tentar se descolar na imagem de Bolsonaro, rejeitado pela condução da crise de acordo com as principais pesquisas de opinião recentes. No fim da semana, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG) enviou um ofício à vice-presidente dos Estados Unidos e do Senado americano, Kamala Harris, no qual ele solicitou que ela intervenha junto ao Governo Joe Biden para vender as vacinas excedentes para o Brasil. Também aprovaram uma moção em que pede ajuda internacional de outros países, algo que Bolsonaro não fez.


Ainda na terça-feira, os senadores participaram de uma audiência coletiva com representantes de todas as farmacêuticas para entender os gargalos na comercialização de vacinas. E, nesta quarta-feira, deverão interpelar o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, sobre os esforços que o país tem feito para a compra dos imunizantes.


Na Câmara, o presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL), disse que, nas próximas duas semanas focará o trabalho em projetos que tenham como tema o controle da pandemia. E prometeu fazer um anúncio sobre as medidas políticas e administrativas que o parlamento tomará. Não se trata de comissão parlamentar de inquérito ou abertura de processo de impeachment, segundo interlocutores de Lira.

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