quinta-feira, 19 de março de 2026

Produção de gás natural vira alvo de Israel e do Irã, ameaçando setor

 

                                             Reuters

  • Unidades do megacampo de Pars Sul foram alvejadas, e Teerã atinge infraestrutura na Arábia Saudita e Qatar

  • Emirados, Qatar e Omã fizeram rara crítica à ação de Tel Aviv, que começou o conflito ao lado de Washington



Um ataque de Israel a instalações do maior campo de exploração de gás natural do mundo, no Irã, gerou nova escalada na guerra no Oriente Médio. A teocracia retaliou contra infraestrutura energética de aliados dos Estados Unidos, parceiros do Estado judeu no conflito, como Qatar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.


A nova crise começou com o bombardeio das Forças de Defesa de Israel contra instalações ligadas ao megacampo de Pars Sul nesta quarta-feira (18), que haviam sido objeto apenas de ações esporádicas até aqui.


A região, que fica no meio do Golfo, é explorada em conjunto pelo Irã e pelo Qatar —que tem acesso a 60% das reservas, numa área denominada Domo Norte. Teerã é a maior produtora local da commodity, quase toda comprada pela China.


Houve incêndio em estações de processamento do gás, controlado após horas. Antes, Tel Aviv havia matado o homem-forte do regime islâmico, Ali Larijani, e um importante comandante militar, o que levou a uma onda de retaliação mais forte contra Israel e países do golfo.


Na sequência, o Irã lançou uma ameaça até aqui inédita: listou uma refinaria e uma petroquímica da Arábia Saudita, um campo de gás dos Emirados Árabes Unidos e três complexos do Qatar.


Até o começo da madrugada de quinta (19, noite de quarta no Brasil), imagens geolocalizadas mostraram grandes explosões em complexos energéticos de Riad —os sauditas disseram ter abatido quatro mísseis balísticos, mas aparentemente algum passou pelas defesas. Em seguida, o chanceler do país afirmou que a Arábia Saudita se reserva o direito de tomar ações militares se julgar necessário, em resposta à ofensiva.


No Qatar, houve explosões e um grande incêndio no maior terminal de embarque de gás natural liquefeito do mundo, em Ras Laffan Industrial City. O governo local apenas disse que estava trabalhando contra ataques, e que tinha evacuado unidades de petróleo e gás. Nos Emirados, o governo relatou queda de destroços nas instalações do campo de gás de Habshan.


Ironicamente, pouco antes o governo em Doha havia emitido protestos, ao lado dos Emirados e de Omã, contra a ação israelense, dizendo que ela era "irresponsável e perigosa". Mas, após os relatos de explosões, expulsou o adido militar de Teerã no país.


Segundo a mídia israelense, a ação ocorreu sem o consentimento dos EUA, relato oposto ao feito pelo site americano Axios. Já o Wall Street Journal afirma que o presidente Donald Trump não quer mais ataques do tipo, salvo escalada no estreito de Hormuz, por onde passam 20% do produto e do petróleo vendidos no mundo.


O governo do premiê Binyamin Netanyahu tem escalado operações militares, anunciando inclusive uma política aberta de assassinato de lideranças do Irã, talvez para manter o ritmo da guerra.


Trump tem se perdido em declarações contraditórias, e isso, segundo analistas do Estado judeu, faz Netanyahu dobrar a aposta no ataque frontal ao regime islâmico. Até aqui, a ideia inicial de ver uma revolta popular para tomar o poder no país persa não passou de uma vontade.


A crítica dos árabes chama mais atenção pelo fato de que são eles que estão sendo mais punidos pela retaliação iraniana. Não é possível falar ainda numa rusga no apoio aos EUA, mas certamente os cálculos estão diferentes agora.


Isso aumenta o isolamento do republicano, que viu seus aliados europeus na Otan e na Ásia se recusarem a apoiar uma força-tarefa de navios de guerra para garantir o escoamento de commodities energéticas pelo estreito de Hormuz.


Por ora, os preços do gás estão apenas com uma leve alta, enquanto os do petróleo seguem subindo de forma mais consistente —atingindo um patamar de US$ 110. A commodity está fortemente impactada pelo virtual fechamento do estreito de Hormuz desde o início da guerra, no dia 28 de fevereiro.


Igor Gielow

Folha de São Paulo

Nenhum comentário: