A intenção do evento é aproximar especialistas, empresários, representantes do setor público e da academia em torno de reflexões estratégicas sobre o desenvolvimento brasileiro”, diz a senadora
Ao abrir, nesta terça-feira, 09/06, em São Paulo, o primeiro seminário internacional do Instituto Diálogos, intitulado “A Nova Geoeconomia Mundial”, a senadora Tereza Cristina (PP- MS), presidente do Conselho de Administração do Instituto, defendeu a importância de se pensar o futuro estratégico e imediato do Brasil. “Por isso estamos aqui hoje. Porque acreditamos que o futuro não acontece. O futuro é construído. E países que deixam de discutir seriamente o seu futuro acabam vivendo o futuro que outros escolheram para eles”, afirmou a senadora.
O evento reuniu especialistas brasileiros e estrangeiros para debater os impactos das transformações geopolíticas globais e a nova ordem econômica mundial. A pauta urgente está no centro da agenda internacional, especialmente neste momento em que a geopolítica global enfrenta seu maior turbilhão em décadas, intensificado pelas recentes tensões comerciais nas relações entre Brasil e Estados Unidos.
Liderado pela senadora e ex-ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, o seminário traz à capital paulista autoridades de peso internacional, com destaque para Nicholas Burns, um dos diplomatas mais experientes da política norte-americana. Burns é ex-embaixador dos EUA na China e na Otan, além de professor da Harvard Kennedy School. Também serão palestrantes Marcos Jank, referência em cadeias globais do agro e segurança alimentar; Marcos Troyjo, ex-presidente do Banco dos BRICS e especialista em comércio internacional e geopolítica; e Ricardo Zuñiga, ex-conselheiro da Casa Branca para América Latina e ex-cônsul dos EUA em São Paulo.
“O mundo vive uma reorganização profunda das cadeias produtivas, energéticas e comerciais. O Brasil precisa compreender seu papel estratégico nesse novo cenário global”, afirma a senadora. “A intenção do evento é aproximar especialistas, empresários, representantes do setor público e da academia em torno de reflexões estratégicas sobre o desenvolvimento brasileiro”, acrescenta a senadora.
A pauta do debate trouxe temas como segurança alimentar; dependência global de fertilizantes; petróleo e gás; transição energética; etanol e bioenergia; reorganização das cadeias globais; relações entre Estados Unidos e China; papel do Brasil na nova economia mundial.
“O Brasil inovou em bioenergia de forma sustentável, mas ainda precisamos internacionalizar. Com parcerias estratégicas, como com os EUA, o nosso agro tem um potencial enorme de expansão, sobretudo no comércio com regiões tropicais”, avaliou Marcos Jank.
Durante sua exposição, Marcos Troyjo traçou um paralelo do atual momento geopolítico com um “Mundo Highlander”. Segundo o especialista, vive-se hoje o paradoxo de uma sociedade que sai de um ambiente altamente tecnológico, impulsionado pela inteligência artificial, para uma realidade supostamente medieval, já que essa nova revolução é altamente dependente de recursos básicos como água, comida e energia.
“Esse cenário de necessidade por recursos básicos deveria aproximar Brasil e Estados Unidos. É difícil que isso seja superado no atual contexto político-eleitoral, mas não podemos desperdiçar a grande relação bilateral que foi construída”, concluiu Marcos Troyjo.
O ex-conselheiro da Casa Branca para a América Latina, Ricardo Zuñiga, endossou a necessidade de maior articulação e destacou que o Instituto Diálogos tem o papel fundamental de diminuir a distância entre a estratégia e a ação dos brasileiros. Segundo ele, o Brasil tem plenas condições de construir parcerias na exploração de terras raras com países como Estados Unidos, Índia, Coreia do Sul, Japão e nações europeias, independentemente do atual domínio da China neste setor.
“Brasil e Estados Unidos são muito parecidos e devem trabalhar juntos. Neste momento, perdemos a visão dos interesses dos EUA acima das questões domésticas, e isso nunca aconteceu antes. Mas vamos reconstruir alianças e precisamos fazer isso com aliados, e o Brasil é um amigo. Estou otimista quanto a esse futuro”, ponderou Zuñiga.
No encerramento do primeiro painel, o diplomata Nicholas Burns elogiou a pertinência das discussões, classificando a criação do Instituto Diálogos como uma “grande iniciativa”, e parabenizou a senadora Tereza Cristina pela liderança. Burns manifestou ainda sua satisfação em participar do evento na capital paulista em um momento de repensar a geopolítica. “Estou muito feliz de estar em São Paulo, porque vejo o Brasil como um amigo. E mais do que isso: como um parceiro”, finalizou.
Sobre o Instituto Diálogos
Lançado em 25 de fevereiro de 2026, o Instituto Diálogos – ID – foi criado com o objetivo de promover o debate plural e a difusão de conhecimento sobre grandes temas presentes nos cenários nacional e internacional. É apartidário e sem fins lucrativos, com temática ampla, aberta às discussões e análises das tendências sociais, tecnológicas, políticas, geopolíticas e geoeconômicas. Os fundadores do Instituto acreditam na riqueza da diversidade de perspectivas que levem à construção de projetos para o Brasil. Seu propósito é o de contribuir para ambientes propícios ao crescimento do País e à prosperidade da nossa população.
O ID foi concebido pela senadora Tereza Cristina (PP-MS), que é reconhecida pelos seus pares, membros do Governo, empresariado e imprensa como uma política de posições moderadas, aberta ao diálogo e comprometida com a qualidade do conteúdo de suas manifestações.
Discurso:
Bom dia a todas e a todos.
Sejam muito bem-vindos ao primeiro encontro da Trilha Diálogos em Movimento.
Este não é apenas mais um evento. É o início de um projeto que nasceu de uma convicção simples: o Brasil precisa voltar a pensar estrategicamente sobre si mesmo.
Temos discutido com intensidade os problemas do presente. Mas, muitas vezes, deixamos de debater as grandes questões que definirão o país que seremos daqui a dez, vinte ou trinta anos.
O Instituto Diálogos foi criado para ajudar a preencher esse espaço. Não para produzir consensos artificiais. Não para defender governos ou oposições. Não para reproduzir disputas ideológicas. Mas para promover algo cada vez mais raro e, por isso mesmo, cada vez mais valioso: diálogo. Diálogo aberto. Diálogo franco. Diálogo baseado em fatos.Diálogo orientado a resultados E, sobretudo, diálogo suprapartidário.Porque os desafios estruturais do Brasil não pertencem a um partido. Pertencem ao país. E pensar o Brasil exige necessariamente pensar o mundo.
Durante décadas, operamos em uma ordem internacional relativamente previsível. Uma ordem baseada em instituições, regras e mecanismos de cooperação que, com todas as suas imperfeições, ofereciam referências relativamente estáveis.
Hoje, esse cenário mudou. Vivemos um período de transição profunda.O multilateralismo enfrenta dificuldades. As disputas geopolíticas se intensificam. O comércio internacional tornou-se mais político. E a competição entre grandes potências redefine mercados, alianças e prioridades. Em um ambiente assim, a pergunta central para o Brasil não é apenas o que acontece no mundo.
A pergunta é: qual será o lugar do Brasil nesse mundo?
Porque os países que prosperam não são necessariamente os que possuem mais recursos. São os que conseguem interpretar corretamente as transformações em curso e agir antes que elas se imponham. Por isso, o momento deste encontro não poderia ser mais oportuno. Ou talvez eu devesse dizer: não poderia ser mais revelador.
Quando concebemos esta iniciativa, certamente não imaginávamos que seu primeiro encontro ocorreria exatamente na semana seguinte à nomeação de um novo embaixador dos Estados Unidos para o Brasil, ao anúncio dos resultados da investigação da Seção 301 e à oficialização da classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelo Departamento de Estado americano.
Mas aqui estamos. E isso nos lembra uma lição importante. A realidade raramente espera que estejamos preparados para ela. É justamente por isso que precisamos criar espaços permanentes de reflexão estratégica.
O relacionamento entre Brasil e Estados Unidos continua sendo uma das relações mais relevantes para o nosso futuro econômico, político e institucional. E relações importantes não se administram por impulsos. Administram-se por diálogo. Por compreensão mútua. Por capacidade de negociação. E por visão de longo prazo.
Costumo dizer que portas abertas produzem mais resultados do que portas batidas. E, em momentos de divergência, essa verdade se torna ainda mais importante. O Brasil não ganha quando reduz suas opções. O Brasil ganha quando amplia sua capacidade de interlocução. Quando consegue conversar com todos. Negociar com todos. Cooperar com todos. Sem abrir mão de seus interesses nacionais.
Em tempos de fragmentação, diálogo não é sinal de fraqueza. É instrumento de poder. E é exatamente sobre isso que trata este encontro. Temos a honra de receber convidados que dedicaram suas vidas profissionais a compreender as transformações do sistema internacional. O Embaixador Nick Burns dispensa apresentações formais. Poucas pessoas acompanharam tão de perto as grandes mudanças geopolíticas das últimas décadas. Da Guerra Fria à ascensão da China. Da expansão da OTAN às novas rivalidades estratégicas do século XXI. Seu percurso representa algo particularmente relevante para os dias atuais: a crença de que a diplomacia continua sendo uma das ferramentas mais poderosas de construção de estabilidade em um mundo instável.
Também teremos a contribuição de Ricardo Zúñiga, profundo conhecedor da América Latina e das relações hemisféricas. Ao longo de sua trajetória no serviço público norte-americano, destacou-se pela capacidade de construir pontes, promover entendimentos e manter canais de diálogo mesmo em momentos de maior complexidade política. Alguém que conhece não apenas Washington, mas também nossa região, suas oportunidades e seus desafios. Num momento em que segurança, migração, crime organizado e integração econômica se tornam temas cada vez mais interligados, sua experiência e sua visão sobre as relações entre as Américas são especialmente valiosas.
Marcos Troyjo traz uma combinação rara de vivência diplomática, econômica e financeira internacional. Poucos brasileiros circularam com tanta desenvoltura entre governos, organismos multilaterais, mercados e centros globais de formulação estratégica. Sua perspectiva ajuda a compreender como poder econômico, tecnologia, comércio e geopolítica estão cada vez mais conectados.
E Marcos Jank é uma das vozes mais respeitadas do agronegócio global. Num momento em que alimentos, energia, sustentabilidade e segurança alimentar deixaram de ser apenas temas econômicos para se tornarem temas estratégicos, sua experiência oferece uma leitura indispensável sobre os desafios e oportunidades do Brasil.
Teremos, por fim, a satisfação de contar com a hábil condução de Thais Herédia, uma das jornalistas econômicas mais respeitadas do país. Ao longo de sua carreira, construiu uma trajetória marcada pela capacidade de analisar temas complexos da economia e da política pública com profundidade, clareza e independência. Sua experiência no acompanhamento dos grandes debates nacionais certamente contribuirá para enriquecer a dinâmica deste encontro e das conversas que manteremos ao longo desta manhã.
A presença desses convidados confirma algo que está no DNA do Instituto Diálogos. Nós não queremos conversar apenas sobre o Brasil. Queremos conversar sobre o Brasil no mundo. Porque não existe mais política doméstica completamente separada da política internacional. Uma decisão tomada em Washington, Bruxelas, Pequim ou Nova Délhi pode afetar empregos, investimentos e oportunidades em qualquer estado brasileiro.
O futuro exige essa visão integrada. E exige também coragem intelectual. Coragem para questionar premissas. Coragem para ouvir quem pensa diferente. Coragem para abandonar respostas antigas para problemas novos.
Se o Instituto Diálogos conseguir contribuir para isso, terá cumprido sua missão. Quero concluir com uma reflexão. O Brasil possui recursos naturais extraordinários. Possui capacidade produtiva. Possui diversidade. Possui talento humano. Mas nenhuma dessas vantagens é suficiente por si só.
O que transforma potencial em realidade é a capacidade de construir projetos nacionais consistentes. E projetos nacionais começam com ideias. Ideias começam com conversas. E conversas só produzem resultados quando há disposição para ouvir.
Por isso estamos aqui hoje. Porque acreditamos que o futuro não acontece. O futuro é construído.E países que deixam de discutir seriamente o seu futuro acabam vivendo o futuro que outros escolheram para eles.
Muito obrigada pela presença de todos. Sejam bem-vindos ao Instituto Diálogos.
E que este seja apenas o primeiro de muitos diálogos necessários para o Brasil.