quarta-feira, 18 de março de 2026

BC reduz Selic em 0,25 ponto, a 14,75% ao ano, no primeiro corte de juros da gestão Galípolo

 

                                             Folhapress


  • Copom confirma plano mesmo com guerra no Irã, mas evita sinalizar intensidade dos próximos passos

  • Última queda da taxa básica de juros tinha sido registrada em maio de 2024, sob Campos Neto



O Copom (Comitê de Política Monetária) iniciou nesta quarta-feira (18) o ciclo de corte de juros e reduziu a taxa básica (Selic) em 0,25 ponto percentual, de 15% para 14,75% ao ano. Essa foi a primeira queda sob a gestão de Gabriel Galípolo no Banco Central.


Apesar da turbulência provocada pela guerra no Irã, o colegiado do BC confirmou o plano traçado no encontro anterior, em janeiro, quando sinalizou a intenção de iniciar a flexibilização da política de juros na reunião de março.


Mas o comitê evitou sinalizar qual será a intensidade dos próximos cortes, citando "forte aumento da incerteza". A ideia do Copom é ter mais clareza da profundidade e da extensão do conflito no Oriente Médio antes de definir os próximos movimentos.


otaram 7 dos 9 membros em decisão unânime. Ainda não foram indicados os substitutos dos diretores Diogo Guillen (Política Econômica) e Renato Gomes (Organização do Sistema Financeiro e de Resolução), cujos mandatos terminaram em 31 de dezembro de 2025.


Cautela (usado três vezes) e incerteza (quatro vezes) foram termos que nortearam a decisão do comitê e deram o tom do comunicado divulgado ao término da reunião.


"No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo", disse.


Às vésperas do encontro, cresceu no mercado financeiro a aposta de uma redução menor de juros no primeiro movimento, de 0,25 ponto percentual, diante da disparada dos preços do petróleo. Antes da escalada do conflito no Oriente Médio, o consenso era de corte de 0,5 ponto percentual.


Levantamento feito pela Bloomberg mostrava que, dentre 30 instituições consultadas, 19 previam queda da Selic para 14,75%, dez projetavam redução para 14,5% e uma acreditava na manutenção da taxa básica em 15% ao ano pela sexta vez seguida.


Diante da incerteza no ambiente global, o Fed (Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos) decidiu manter os juros entre 3,5% e 3,75%, pela segunda reunião consecutiva.


O Copom disse olhar para os impactos futuros do conflito no Oriente Médio, sobretudo os efeitos provocados sobre a cadeia de suprimentos global e os preços de commodities, que afetam a inflação no Brasil de forma direta e indireta.


De acordo com o colegiado do BC, houve distanciamento adicional das projeções de inflação em relação à meta. Em seu cenário de referência, a estimativa para este ano saltou de 3,4% para 3,9%. Para o terceiro trimestre de 2027, a estimativa subiu de 3,2% para 3,3%. Esse é o prazo na mira do Copom devido aos efeitos defasados da política de juros sobre a economia.


O comitê, contudo, reconheceu que a incerteza em relação a suas próprias projeções aumentou consideravelmente, diante da falta de clareza sobre a duração da guerra e de seus impactos.


A tensão global pesou na escolha do BC por um primeiro passo conservador, apesar da pressão crescente do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e dos setores produtivos pela queda dos juros.


Ao justificar a decisão, o Copom disse ver evidências dos efeitos dos juros altos por longo período sobre a desaceleração da atividade econômica e que, por isso, julgou que seria apropriado dar início ao ciclo de queda da Selic.


Segundo o colegiado, foram criadas condições para que "ajustes no ritmo dessa calibração, à luz de novas informações, sejam possíveis de forma a assegurar o nível compatível com a convergência da inflação à meta."


Esse foi o primeiro corte da Selic em quase dois anos. A última queda tinha sido registrada em maio de 2024, quando Roberto Campos Neto ainda era presidente do Banco Central.


O alívio naquela época durou pouco e, na sequência, foi executado um ciclo de alta que alçou, em junho de 2025, a taxa básica de juros ao nível de 15% ao ano. Desde então, a Selic ficou estacionada nesse patamar –o mais alto desde julho de 2006.


No acumulado de 12 meses até fevereiro, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) chegou a 3,81%. O alvo central do BC é 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. No modelo de meta contínua, o objetivo é considerado descumprido quando a inflação acumulada permanece durante seis meses seguidos fora do intervalo, que vai de 1,5% (piso) a 4,5% (teto).


Nas últimas semanas, cresceram os riscos sobre os preços no curto prazo. O barril do petróleo chegou a ficar próximo de US$ 105 na terça-feira (17) em mais um dia de preocupações com a continuidade do confronto dos EUA e de Israel contra o Irã.


Para conter a alta de preços de combustíveis, o governo Lula zerou as alíquotas de PIS/Cofins sobre o diesel até o fim do ano, ao custo de R$ 20 bilhões. Também autorizou um subsídio de até R$ 10 bilhões para bancar parte do preço do diesel.


Em relação à política fiscal, o Copom manteve o tom usado em comunicados anteriores. Ele disse seguir acompanhando seus desdobramentos sobre a política de juros e sobre os ativos financeiros.


Desde a reunião anterior, o câmbio apresentou melhora. A cotação do dólar usada pelo comitê em seus cálculos foi de R$ 5,20 –ante R$ 5,35 no encontro de janeiro.


Para o colegiado do BC, o cenário doméstico continua marcado por expectativas de inflação distantes da meta, projeções elevadas e pressões no mercado de trabalho, que ainda mostra sinais de resiliência.


Segundo os dados coletados pelo boletim Focus, divulgado na última segunda (16), os analistas projetam que o IPCA feche 2027 e 2028 em 3,8% e 3,5%, respectivamente.


O colegiado voltará a se reunir nos dias 28 e 29 de abril, no terceiro dos oito encontros previstos para o ano.

Nathalia Garcia

Folha de São Paulo

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