terça-feira, 17 de março de 2026

Governo Trump diz a Cuba que líder da ilha precisa deixar cargo

 

                                             via Reuters


  • Após saída de Miguel Díaz-Canel, próximos passos ficariam a cargo dos cubanos, diz New York Times

  • Objetivo de longo prazo seria abrir economia do país aos EUA e criar um Estado vassalo




Enquanto autoridades americanas e cubanas negociam o futuro da ilha caribenha governada por comunistas e em grave crise, o governo de Donald Trump tenta destituir o líder Miguel Díaz-Canel do poder, segundo quatro pessoas familiarizadas com as negociações.


A medida derrubaria uma figura-chave, mas manteria no poder o regime repressivo que comanda Cuba há mais de 65 anos. Os americanos sinalizaram aos negociadores da ilha que o líder deve sair, mas estão deixando os próximos passos a cargo dos cubanos, disseram as fontes.


Até o momento, os Estados Unidos não estão pressionando por nenhuma ação contra os membros da família Castro, que continuam sendo as principais figuras de poder do país, disseram duas pessoas. Isso está em consonância com o desejo de Trump e seus assessores de gerenciamento em vez de mudança de regime na política externa.


Na visão de alguns funcionários do governo Trump, a remoção de Díaz-Canel permitiria mudanças econômicas que o atual chefe de Estado de Cuba, considerado um linha-dura, provavelmente não apoiaria, disse um dos entrevistados.


Caso os cubanos concordem, isso resultará na primeira grande reviravolta política decorrente das negociações entre os dois países desde o início das conversas, há alguns meses.


Além disso, a destituição do dirigente cubano daria a Trump uma vitória simbólica que lhe permitiria dizer ao público americano que derrubou o líder de um governo de esquerda que há muito se opõe aos EUA, como fez na Venezuela, disse um dos entrevistados.


A medida, embora tenha a intenção de mostrar à comunidade cubana e a outros americanos que o governo busca mudanças tanto políticas quanto econômicas, provavelmente decepcionará muitos exilados que moram nos EUA e desejam ver uma transformação política completa em seu país. Parlamentares cubano-americanos no Congresso e políticos na Flórida também podem exigir mais ações de Trump.


Os negociadores americanos também querem que Havana concorde em afastar do poder alguns funcionários mais antigos que ainda se mantêm fiéis às ideias de Fidel Castro, o pai da revolução, disse um dos entrevistados. Além disso, os americanos pressionam pela libertação de presos políticos, um objetivo político de longa data dos EUA.


Mas, do ponto de vista das autoridades americanas, as negociações têm como foco a abertura gradual da economia cubana para empresários e empresas americanas —preparando o terreno para que o país se torne um Estado vassalo— enquanto buscam obter algumas vitórias políticas simbólicas para Trump.


As quatro pessoas falaram sob condição de anonimato para discutir assuntos diplomáticos delicados, e o regime cubano se recusou a comentar.


Díaz-Canel, 65, lidera Cuba desde 2018 e também preside o Partido Comunista. Restam-lhe dois anos de mandato presidencial. Ele foi a primeira —e até agora a única— pessoa cujo sobrenome não é Castro a governar Cuba desde a vitória da revolução, em 1959.


Ex-vice-presidente e dirigente partidário regional, ele é considerado uma figura decorativa que não exerce verdadeiro controle político ou econômico em Cuba —na verdade, foi o sucessor escolhido a dedo pelo ex-líder cubano Raúl Castro. O irmão de Fidel tem 94 anos e ainda detém considerável poder.


Sob Díaz-Canel, Cuba testemunhou os maiores protestos do país em décadas em julho de 2021. Ele respondeu convocando seus apoiadores ao combate e impondo uma forte repressão que envolveu prisões em massa, processos judiciais e condenações.


A Gaesa, conglomerado empresarial controlado pelos militares cubanos, administra setores-chave da economia, incluindo turismo e varejo, e, acredita-se, tem mais influência nos assuntos do país do que o atual líder.


Mas, segundo especialistas, a gestão formal de Díaz-Canel em Cuba, durante um período em que milhões de cidadãos fugiram do país devido à desintegração econômica que desencadeou uma crise humanitária, fez dele um alvo óbvio para ser responsabilizado.


A mensagem do governo Trump de que o político deve sair do cargo não foi articulada como um ultimato, mas apresentada como um passo positivo que abriria caminho para acordos produtivos, disse uma das pessoas entrevistadas.


Os cubanos envolvidos nas negociações com os EUA concordaram que a gestão de Díaz-Canel tem sido problemática, mas ainda precisam encontrar uma maneira de promover mudança sem dar a impressão de que Washington está dizendo a Havana o que fazer, disse um entrevistado.


A Casa Branca, por sua vez, teria sinalizado que não fecharia nenhum acordo com ele no comando. Como parte de sua estratégia para pressionar a ilha, Trump bloqueou as importações de petróleo estrangeiro.


Raúl Guillermo Rodríguez Castro, neto de Raúl Castro, tem sido um dos principais negociadores com os EUA. Ele fala diretamente com o secretário de Estado americano, o filho de imigrantes cubanos Marco Rubio, e provavelmente continuará conduzindo o regime após a saída de Díaz-Canel, disse uma pessoa.



Ainda assim, Rodríguez Castro, conhecido como Raulito, teria poder apenas nos bastidores, e outra figura que não possui o sobrenome Castro ocuparia oficialmente o poder, continuou um dos entrevistados.


Em um pronunciamento de 90 minutos na sexta-feira (13), Díaz-Canel reconheceu pela primeira vez as negociações em andamento com o governo dos EUA e atribuiu os problemas econômicos do país e os prolongados apagões ao embargo comercial de Washington, e, em particular, ao bloqueio do petróleo imposto por Trump. Segundo o líder, a ilha não importa petróleo há três meses.


"O governo não tem culpa, a revolução não tem culpa", disse ele. "A culpa é do bloqueio energético que nos foi imposto."


Nesta segunda (16), a rede elétrica falhou e todo o país mergulhou no escuro. O Departamento de Estado dos EUA se recusou a comentar, remetendo às recentes declarações de Trump sobre a ilha. "Acredito que terei a honra de assumir o controle de Cuba", disse Trump nesta segunda.


Questionado, ele se recusou a dizer se seria uma medida diplomática ou militar, afirmando apenas: "Acho que posso fazer o que quiser com isso". O governo pretende fazer em Cuba o que fez na Venezuela —destituir o presidente—, mas, desta vez, sem o uso da força militar. Um ataque é considerado improvável, disseram dois dos entrevistados.


Enquanto os EUA realizavam ataques aéreos em Caracas, no dia 3 de janeiro, soldados americanos entraram na capital e prenderam o líder do país, Nicolás Maduro, que agora enfrenta acusações de tráfico de drogas em Nova York. A ação permitiu que Washington assumisse o controle da indústria petrolífera da Venezuela e interrompesse todas as exportações de petróleo do país para Cuba.


O México também vinha mandando petróleo para a ilha para fins humanitários, mas interrompeu esses envios após a intervenção na Venezuela devido à pressão de Washington.


O governo dos EUA também sugeriu que Cuba privatizasse seu setor petrolífero, mas as autoridades cubanas relutam em fazê-lo, porque isso provavelmente daria a Washington um poder significativo sobre os assuntos cubanos, disse um dos entrevistados.


A saída de Díaz-Canel é mais simbólica do que substancial, mas oferece uma oportunidade perfeita para Washington e Havana redefinirem seu relacionamento, segundo Ricardo Zúniga, um funcionário do Conselho de Segurança Nacional do governo de Barack Obama (2009-2017) que manteve negociações secretas com o governo cubano, resultando em aberturas diplomáticas e econômicas.


"Para mim, faz todo o sentido; é o que eu teria feito", disse Zúniga. "O capitão afunda com o navio, e este navio está afundando."


Díaz-Canel nunca foi alguém disposto a buscar políticas transformadoras, segundo Zúniga, e foi colocado no cargo justamente porque não introduziria nenhuma mudança drástica, o que facilitaria seu sacrifício no atual impasse com os EUA.


Alguns especialistas, porém, dizem que a destituição do líder não seria suficiente.


"Sim, eles precisam se livrar dele —junto com todo o bureau político do Partido Comunista e da Gaesa", afirmou Marlene Azor Hernández, ex-socióloga da Universidade de Havana, agora exilada no México. "Acho que ele fez um trabalho ruim, mas é uma figura decorativa totalmente manipulada."


Não está claro quem o substituiria, mas o regime parece estar avaliando vários candidatos, dando maior visibilidade pública a funcionários que normalmente trabalham nos bastidores.


Oscar Pérez-Oliva Fraga, sobrinho-neto de Fidel e Raúl Castro, nomeado vice-primeiro-ministro de Cuba no final do ano passado, concedeu na segunda uma rara entrevista a uma rede de notícias americana, na qual falou sobre a abertura do país ao investimento estrangeiro.


Frances RoblesEdward WongAnnie CorrealThe New York Times

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