domingo, 15 de fevereiro de 2026

Morre José Álvaro Moisés, cientista político e fundador do PT, aos 80 anos

 

                                             José Álvaro Moisés, professor da USP, durante debate "Em Frente pela Democracia", no Teatro Fecap

  • Ele se afogou na praia de Itamambuca, em Ubatuba, na sexta-feira (13)

  • Ele era professor da USP e referência em estudos sobre democracia


José Álvaro Moisés, professor titular de ciência política da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) da USP (Universidade de São Paulo), morreu nesta sexta-feira (13), aos 80 anos.


O cientista político foi um dos fundadores do PT (Partido dos Trabalhadores), partido do qual tornou-se crítico nos últimos anos.


Ele se afogou, por volta de 17h40, na praia de Itamambuca, em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo. Segundo o Grupo de Bombeiros Marítimos, ele foi encontrado inconsciente, na faixa de areia.


As equipes fizeram manobras de reanimação cardiopulmonar ainda na praia, até a chegada da equipe médica. Mesmo após a continuidade dos procedimentos avançados de reanimação, ele não resistiu. A morte foi constatada ainda no local pela equipe de saúde.


O velório será realizado neste domingo (15) das 8h às 11h no salão nobre do prédio da administração da FFLCH, na rua do Lago 717, Cidade Universitária, São Paulo.


Recentemente Moisés atuava no movimento Direitos Já! Fórum Pela Democracia e realizava articulações para a criação de uma frente democrática nas próximas eleições para o Senado, segundo Fernando Guimarães, coordenador do grupo.


"Ele estava envolvido na busca de um diálogo com os partidos para que a gente possa ter não mais do que dois candidatos do campo democrático por estado, para que a gente tenha condições de enfrentar com racionalidade a extrema direita e conseguir garantir uma maioria comprometida com o estado democrático de direito no Senado Federal", disse Guimarães.


Entre as décadas de 1960 e 1970, Moisés trabalhou na Folha como repórter especial, redator e editor.


O cientista político obteve sua graduação em 1970 nas primeiras turmas de ciências sociais da USP. Realizou mestrado em política e governo pela Universidade de Essex (1972) e doutorado em ciência política pela USP (1978), sob a orientação de Francisco Weffort.


Após romper com lideranças petistas, Moisés assumiu postos no governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Na gestão FHC, o cientista político foi secretário de Apoio à Cultura (1995-1998) e secretário de Audiovisual (1999-2002) do Ministério da Cultura.


O cientista político "era um incansável construtor de instituições: foi fundador do Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas da USP, e foi também o primeiro coordenador do curso de gestão de políticas públicas da EACH/USP (2004/2006)", segundo nota do departamento de ciência política da USP.


"Como professor sênior do Instituto de Estudos Avançados da USP, coordenava, com grande dinamismo, o Grupo de Pesquisa da Qualidade da Democracia", segue a nota.


A ABCP (Associação Brasileira de Ciência Política) lamentou a morte e afirmou que Moisés foi uma das principais referências da ciência política brasileira, com contribuições fundamentais para os estudos sobre democracia, instituições políticas, cultura política e qualidade da democracia.


"Sua trajetória acadêmica, marcada pelo rigor intelectual e pelo compromisso com a vida pública, deixa um legado incontornável para a área e para gerações de pesquisadoras e pesquisadores. Neste momento de tristeza, a ABCP manifesta sua solidariedade aos familiares, amigos(as), colegas e estudantes", diz trecho da nota.


A professora emérita da FFLCH e colunista da Folha Maria Hermínia Tavares lembrou que Moisés teve atuações destacadas nos campos acadêmico e público.


"Ele teve um um engajamento acadêmico importante, que não era um engajamento só em pesquisa, mas era em construção institucional também, organizou o departamento de ciência política [da USP]. E teve engajamento público significativo, chegou a ocupar um posto no governo Fernando Henrique, no Ministério da Cultura."


Para o cientista político Sergio Fausto, diretor-executivo da Fundação FHC, é " importante destacar, em especial, o fato de que ele, junto com [Francisco] Weffort, esteve entre os intelectuais de esquerda, originalmente ligados ao PT, que mais contribuíram para dar valor à democracia como uma conquista civilizatória".


O presidente do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), Adrian Lavalle, também lamentou a morte de Moisés.


"Perdemos, infelizmente, uma figura central na ciência política do Brasil. Alguém que ajudou a estruturar o campo da ciência política e que contribuiu a tornar presente a ciência política nacional em diferentes fóruns internacionais", disse.


Em nota, Rafael Duarte Villa, chefe do departamento de ciência política da USP, declarou que Moisés foi um dos fundadores dos estudos da cultura política no país.


De acordo com Villa, o cientista político era "um apaixonado da democracia brasileira a qual dedicou todas suas reflexões e esforço intelectual nas últimas três décadas", deixando obras como "Crises da Democracia: o Papel do Congresso, dos Deputados e dos Partidos", "A Desconfiança Política e os seus Impactos na Qualidade da Democracia" e "Democracia e Desconfiança. Por que os Cidadãos Desconfiam das Instituições Públicas".


O PT, que teve Moisés como um de seus fundadores, divulgou nota na qual afirmou que "sua trajetória intelectual esteve marcada pelo compromisso com o estudo das instituições democráticas e pelo acompanhamento atento da vida política nacional".


"Moisés sempre se colocou no campo do debate democrático, contribuindo para o pluralismo de ideias que fortalece a sociedade brasileira", completou o partido.


Francisco Lima NetoBárbara SáFolha de São Paulo

Nenhum comentário: