domingo, 4 de janeiro de 2026

Ataque dos EUA contra a Venezuela rompe marca de quase 40 anos sem intervenções diretas na América Latina

 

                                             Hu Tairan/Xinhua

  • Doutrina de evitar tropas americanas para depor governantes na região atravessou governos democratas e republicanos

  • Incerteza em país assolado por crise que já expulsou quase 7,9 milhões pode levar a nova onda de migração



O ataque dos Estados Unidos à Venezuela neste sábado (3), após meses de bombardeios no Caribe e no oceano Pacífico, rompe um jejum de mais de três décadas de invasões americanas na América Latina e traz impactos simbólicos e práticos para toda a região.


Durante a madrugada, o governo de Donald Trump atacou diversas cidades da nação sul-americana, incluindo a capital, Caracas, e capturou Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores. De acordo com o presidente americano, o ditador foi levado aos EUA para ser julgado por crimes relacionados a narcoterrorismo.


Trata-se da maior operação militar de Washington na região desde a invasão dos EUA ao Panamá, em 1989 —o que rompe, portanto, com uma doutrina de não intervenção direta da Casa Branca na América Latina que atravessou governos democratas e republicanos ao longo dos últimos 36 anos.


A invasão do Panamá, no dia 20 de dezembro de 1989, derrubou o ditador Manuel Noriega e deixou marcas que permanecem no país centro-americano. Os números variam, mas as contagens mais conservadoras falam em mais de 200 civis mortos, e, até hoje, dezenas de familiares seguem buscando parentes desaparecidos.


O direito internacional, que rege a relação entre os Estados e vem sendo testado nos últimos anos em todo o mundo, prevê ataques legítimos em apenas duas situações: defesa imediata contra uma agressão e sob aprovação do Conselho de Segurança das Nações Unidas.


Nenhuma das alternativas antecedeu os bombardeios americanos na Venezuela neste sábado, o que rompe um tabu histórico em uma região que vinha tentando, com êxito, firmar-se como uma "zona de paz" —esforço oficializado na 2ª Cúpula da Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), em 2014.


O ataque pode ainda enfraquecer organismos internacionais que já vinham se mostrando instáveis, uma vez que rompe com o princípio de soberania nacional defendido por esses órgãos e evidencia a polarização política pela qual a América Latina passa.


A última cúpula da Celac, por exemplo, que ocorreu em Honduras, terminou com uma declaração não endossada por Argentina, Paraguai e Nicarágua, embora o órgão exija consenso de seus 33 países-membros para esse tipo de comunicado.


O episódio foi representativo do racha político que ocorre na região, claro também nas reações à invasão. Enquanto o presidente argentino, Javier Milei, manifestou apoio ao ataque ("A liberdade avança", afirmou o ultradireitista em uma publicação na rede social X), o presidente Lula (PT) afirmou que os bombardeios "ultrapassam uma linha inaceitável".


Para além das questões simbólicas, o ataque tem o potencial de impactar ainda mais uma sociedade já vulnerável pelas múltiplas crises que a ditadura chavista impôs à Venezuela. Consultorias independentes calculam que a inflação venezuelana em 2025 ultrapassou os 500%, o que nem chega a ser a pior cifra dos últimos anos. Em 2021, o Banco Central informou que o índice foi de 686,4%; em 2018, inimagináveis 130.060%.


Tal crise econômica, aliada à repressão política do regime, provocou uma das maiores ondas de migração recentes —de acordo com o Acnur, a agência de refugiados da ONU, quase 7,9 milhões de pessoas deixaram a Venezuela nos últimos anos, das quais mais de 6,9 milhões estão em países da América Latina e do Caribe.


Maduro poderia ser substituído por uma figura linha-dura do próprio regime, como o ministro do Interior, Diosdado Cabello, o que possivelmente aumentaria a repressão interna. Há também a possibilidade, no entanto, de que entre a número dois da ditadura, Delcy Rodríguez, ou o vencedor das últimas eleições, o oposicionista Edmundo González, atualmente exilado na Espanha, após uma série de denúncias de fraudes contra Maduro.


Cada um desses cenários levaria a diferentes consequências, mas em todos há algum nível de incerteza que pode levar a uma nova onda de migração. Essa possibilidade impactaria os sistemas de acolhimento dos países mais afetados pelo êxodo: Colômbia, Argentina, Brasil, Costa Rica, Equador, México, Panamá e Peru.


O primeiro é, de longe, o que mais recebe migrantes e refugiados venezuelanos —o grupo soma cerca de 2,8 milhões de pessoas na Colômbia, de acordo com o Acnur. O Brasil, por sua vez, abriga 783 mil venezuelanos, segundo a mesma organização, o que faz dessa a nacionalidade mais comum entre estrangeiros no país.


A média diária de entrada de venezuelanos no Brasil varia de 300 a 500 pessoas, muitas das quais chegam por Roraima. A fronteira em Pacaraima, no estado, está fechada por decisão da Venezuela, disseram à Folha membros do governo Lula, que montou um plano de contingência para uma possível crise de migração.


Por fim, a invasão da Venezuela, que possui as maiores reservas de petróleo do mundo, pode abalar o mercado da commodity e afetar indiretamente a região, embora a produção de Caracas esteja abaixo da capacidade total.


Nos últimos meses, os temores de que pudesse haver um bloqueio das exportações e a interceptação de um navio petroleiro em águas internacionais na costa da Venezuela chegaram a aumentar os preços do petróleo.


Após o ataque, porém, havia expectativa de que a intervenção militar pudesse suspender as sanções e fazer o país voltar a uma produção próxima dos 3,5 milhões de barris por dia dos anos 1970, o que poderia aumentar a oferta e diminuir os preços.


Trump enterrou por ora essa possibilidade ao anunciar que as restrições contra Caracas permanecem vigentes


Daniela Arcanjo

Folha de São Paulo

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