domingo, 26 de outubro de 2025

Prova de fogo: Eleição legislativa definirá segunda metade do mandato de Milei, em meio a crises e perda de apoio

 






Quando chegou ao poder, em 10 de dezembro de 2023, o presidente da Argentina, Javier Milei, não tinha ainda um partido político estruturado em todo o país, e tampouco uma presença expressiva no Parlamento. Sua força vinha das urnas, onde obteve quase 56% dos votos no segundo turno, com o apoio do partido do ex-presidente Mauricio Macri (2015-2019) e, portanto, de eleitores de centro-direita e direita. Neste domingo, , em meio a uma deterioração da situação econômica e tensões políticas crescentes, os argentinos irão novamente às urnas para renovar quase a metade da Câmara (127 de 257 cadeiras) e um terço do Senado (24 de 72 membros).


O resultado dirá em que condições Milei governará pelos próximos dois anos. Sem o apoio popular que teve no primeiro ano de governo, o presidente precisa ampliar e fortalecer a presença de seu partido, A Liberdade Avança (LLA), no Congresso para garantir governabilidade. Um resultado ruim será o prenúncio de tempos difíceis para a Argentina.


Milei, cujo partido tem hoje 37 deputados e nenhum senador, chega ao pleito enfraquecido pelo impacto negativo de suas políticas de ajuste, escândalos de corrupção e uma má avaliação majoritária da sua gestão de governo. Nos últimos meses, a oposição — peronista e não peronista — dificultou a vida do presidente no Congresso, impedindo a aprovação de projetos de lei e derrubando vetos presidenciais. A resposta do chefe de Estado foi endurecer o tom, e não cumprir decisões do Legislativo, atitude que só piorou a situação.


Na última segunda-feira, um enviado do ministro da Economia, Luis “Toto” Caputo, foi ao Congresso discutir o projeto de Orçamento para 2026, que ainda não foi aprovado. Perguntado por que o governo não liberava fundos para universidades e hospitais pediátricos, como determinou o Parlamento ao anular vetos do presidente, o funcionário, segundo fontes que participaram do encontro, respondeu que “nem o Fundo Monetário Internacional (FMI) e nem os EUA nos pedem uma lei de orçamento”.


O recado foi claro: o governo não está disposto a cumprir normas legislativas, se considerar que elas ameaçam o equilíbrio fiscal. E se essa atitude tiver como consequência que o país não tenha uma lei de Orçamento, Milei está disposto a pagar o preço, já que essa não é uma demanda dos EUA, hoje sua principal base de sustentação política.


Dever de casa

Com esse pano de fundo, surgem várias dúvidas: se não obtiver uma vitória nas urnas, o que fará Milei? Vai redobrar a aposta, ou seja, manter a tensão com a oposição e um ajuste que lhe custou a perda de apoio social? Ou, pelo contrário, entenderá a necessidade de construir um consenso político interno, para garantir governabilidade na segunda metade do mandato?


Partindo de projeções que não indicam que Milei conseguirá um triunfo contundente nas urnas — no melhor dos cenários, apontam pesquisas locais, conseguirá um empate com as forças peronistas —, a reação esperada por analistas como Carlos Fara, diretor da Fara e Associados, é que Milei pegue o telefone, ligue para governadores e convoque uma reunião para negociar consensos possíveis.


— Todos nos perguntamos a mesma coisa: a partir de segunda-feira, Milei fará o dever de casa? Basicamente, optará por negociar com a oposição, ordenará o mercado cambial e começará a acumular reservas no Banco Central [hoje negativas]? Se nada disso acontecer, a situação poderá se complicar — aponta Fara


Os primeiros sinais deverão surgir na próxima semana, mas Milei terá até o dia 10 de dezembro, quando o novo Parlamento assumir, para mostrar o que pretende fazer nos próximos dois anos. Serão, frisa Fara, 45 dias cruciais para a Argentina.

Por 

Janaína Figueiredo

 — Buenos Aires

                                                Foto: Info Money

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