quinta-feira, 24 de março de 2016

“Batman vs Superman” confirma tom mais sério do Universo DC





 Um dos lançamentos mais aguardados dos últimos anos, “Batman vs Superman: A Origem da Justiça” tinha muitas missões a cumprir.

Além de fazer uma sequência de “O Homem de Aço” (2013), Zack Snyder precisava debater moralmente o desfecho caótico de seu longa anterior, enquanto tinha de estabelecer o Universo DC no cinema, confirmando seu tom mais sério e sombrio em relação à franquia Marvel e suas próprias séries televisivas. E, ao mesmo tempo, introduzindo os novos super-heróis e a trama para os próximos filmes.

O cineasta consegue lidar, bem ou mal, com essas tarefas, mas sua principal falha está em se preocupar tanto com passado e futuro e esquecer-se do presente, relegando a construção da rivalidade entre os protagonistas. O público chegará às salas com o conflito já pré-concebido por toda a publicidade em torno da produção, que, por sua vez, estampa a tensão dos dois sem desenvolver tão bem suas razões.

O roteiro de Chris Terrio e David S. Goyer, responsável pelo filme de 2013 e a trilogia “Batman” de Nolan, alimenta as motivações do Cavaleiro das Trevas (Ben Affleck), sem fazer o mesmo com o Superman (Henry Cavill).

O fato de o Batman vir à frente no título e a fotografia ser mais sombria não é acidental, pois o longa dedica grande parte de seu primeiro ato para introduzir o drama passado já bem conhecido de Bruce Wayne, com flashs da morte dos pais e sua relação com os morcegos.

Além disso, mostra-se o ponto de vista do milionário durante a destruição causada pela batalha do Homem de Aço e o General Zod (Michael Shannon) no capítulo anterior. A história pula 18 meses, com o herói de Gotham City à caça de quem julga ser um algoz da humanidade. E, ainda assim, os pesadelos que o assombram dão maior suporte para a construção do personagem, que Ben Affleck conduz muito bem, apesar da desconfiança geral, como um ótimo Sr. Wayne.

Enquanto isso, o Superman tem a continuação de seu arco desenvolvida através de outros personagens e recursos, com pouco para o Kal-El/Clark Kent se envolver com seus próprios dilemas. Aclamado pela maioria após o ataque em Metrópolis, um incidente na África, quando ele vai salvar sua amada Lois Lane (Amy Adams), põe suas ações em xeque para a população, em especial para a senadora Finch (Holly Hunter).

As inserções da cobertura midiática, com toques de realidade, sobre o caso levantam a questão sobre a necessidade e os perigos deste deus alienígena para os humanos, já que Cavill não demonstra a dúvida e descrença esperadas, e sim, indiferença – seus melhores momentos são os de uma raiva inédita para o super-herói.

Por sua vez, Gal Gadot surpreende até quem criticava sua escolha como Mulher-Maravilha, deixando no ar intrigante de seu disfarce e na sua força como heroína uma expectativa para seu filme solo, a estrear no ano que vem – os outros membros da futura Liga da Justiça aparecem brevemente para os fãs.

A performance mais controversa, porém, vem de Jesse Eisenberg com sua versão psicótica de Lex Luthor, como se o seu misantropo Mark Zuckerberg de “A Rede Social” encontrasse o Coringa. Se os maneirismos são conhecidos e acentuados, a loucura contida nas falas rápidas e pequenos gestos projeta uma perspicácia e uma leve comicidade no personagem que fazem o espectador não tirar os olhos dele.

Snyder faz o público entrar no clima de tensão deste longo filme mais facilmente que o anterior, “O Homem de Aço“, uma obra que se enfraquece em uma segunda apreciação, o que pode acontecer com esta também. A espetacularização da destruição é menor: ela ainda está lá, no mais artificial CG no final, mas encontra uma base frágil nas proporções épicas do Superman, enquanto o diretor e os roteiristas têm o cuidado de levar a batalha para áreas mais afastadas e diminuir a lembrança dos atentados de 11 de setembro que a franquia carrega em si.

Por outro lado, não imprime um diferencial em sua direção como fez antes ao mostrar o crescimento de Clark Kent numa pequena fazenda no Kansas ou nas referências messiânicas, agora contidas no texto.

A orquestração dramática da trilha de Hans Zimmer e de músicas clássicas com a clara intenção de tornar mais suntuosas certas cenas de ação soa exagerado às vezes, mas reforça o caráter mitológico característico da origem desses personagens. Mais que tudo, é um pontapé eficiente para o futuro “Liga da Justiça”, construindo um caminho para esses novos Cavaleiros da Távola Redonda, como indica a citação inicial ao filme “Excalibur” (1981).

(Por Nayara Reynaud, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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