quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Especialistas explicam o que é morte súbita por epilepsia, provável causa da morte de Ricardo Spencer

 

                                           Ricardo Spencer, cineasta, roteirista e diretor de cinema - Divulgação/Globo

  • Cineasta foi encontrado morto aos 49 anos em apartamento no centro de São Paulo
  • Sudep é uma complicação rara associada a crises epilépticas graves, e pode acontecer durante o sono



A causa da morte do diretor e cineasta Ricardo Spencer, encontrado sem vida em seu apartamento no Copan, no centro de São Paulo, tem relação com seu quadro de epilepsia. É o que aponta o resultado do laudo necroscópico do IML (Instituto Médico Legal), cujas informações a família tornou públicas.


Ricardo tinha 49 anos e era epiléptico. Foi encontrado morto na manhã de 20 de julho, sem sinais de violência, intoxicação ou atentado contra a própria vida. Um mês depois, o laudo indica que a causa mais provável é uma sudep (acrônimo para morte súbita inesperada em epilepsia, em inglês).


O neurologista Frederico Haidar Jorge, doutor pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e membro do Ambulatório de Esclerose Lateral Amiotrófica, diz que a sudep é sempre uma causa provável, geralmente difícil de concluir como certa.


"Só se conclui que houve sudep quando a pessoa morre, o que permite a associação entre o óbito e uma crise de epilepsia grave. Porém, a sudep ainda é uma incógnita no que tange à sua descrição. Na maior parte das vezes, uma crise dessa magnitude pode ser resolvida se a pessoa estiver acompanhada, e não terminar em morte", afirma.


Segundo o médico, mortes por epilepsia são eventos raros, geralmente associados a quadros mais graves, como as generalizadas, e a momentos de crise. "A proporção de óbito é de 1 ou 2 a cada mil pessoas com a doença", explica Haidar.


O neurologista William Ferreira, líder da linha de cuidado em Epilepsia do Vera Cruz Hospital, afirma que esses quadros são mais comuns em quem não tem adesão medicamentosa; ou seja, entre pacientes que não seguem adequadamente o tratamento medicamentoso.


"O mecanismo desse evento está relacionado com uma supressão cardiorrespiratória. Em uma crise noturna, por exemplo, o paciente que mora sozinho vai passar por isso muitas vezes sem recursos para evitar", explica. Isso porque, diz o médico, é comum que, além dos sintomas respiratórios, a pessoa fique desorientada, dificultando ainda mais a procura por ajuda.


É comum que crises epilépticas também apareçam à noite, tornando mais difícil a identificação pelo paciente, explica o médico.


Suspeita-se que Ricardo tenha morrido na noite anterior. O porteiro do prédio relatou que ele havia pedido comida por delivery, mas não respondeu ao contato da portaria quando a entrega chegou. Desde então, não falou mais com familiares e amigos.


Segundo os médicos, quando controlada, a epilepsia dificilmente vai resultar em crises tão graves a ponto de resultar em morte. É possível, inclusive, que a estimulação física feita por um acompanhante alivie o sistema respiratório quando o paciente está em crise.


A epilepsia é uma doença neurológica caracterizada pela predisposição do cérebro a apresentar crises epilépticas recorrentes, provocadas por alterações temporárias e anormais da atividade elétrica dos neurônios.


As crises podem se manifestar de diferentes formas, dependendo da região cerebral afetada, desde episódios de ausência e alterações de percepção até convulsões com perda de consciência e movimentos involuntários. O diagnóstico leva em conta o histórico clínico e, quando necessário, exames como eletroencefalograma e exames de imagem.


Se forem focais, ou centradas em uma região específica do cérebro, as crises vão resultar em manifestações sutis, como movimentos involuntários dos olhos, das mãos e da mandíbula (mastigação). Quando se espalha, apresenta um quadro parecido com a convulsão, em que a pessoa treme todo o corpo involuntariamente e pode morder a língua.


Segundo Ferreira, o tratamento medicamentoso, se bem escolhido, pode controlar até 80% dos casos de epilepsia. Existe uma ampla gama de medicamentos, definida a partir do tipo de epilepsia do paciente e de suas comorbidades.


Luis Eduardo de Sousa

Folha de São Paulo

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