sábado, 3 de outubro de 2026

Campanha é a menos engajada desde a volta da democracia, indicam eleitores e analistas

 

                                           Allison Sales - 6.out.2024/Folhapress



  • Em pesquisas qualitativas, votantes expressam cansaço e 'ressaca' das disputas de 2018 e 2022
  • Cientistas políticos debatem causas do fenômeno e divergem sobre efeito em abstenções



Pesquisadora e consultora de campanhas há 12 anos, a cientista política Carolina de Paula percebeu na atual disputa uma mudança significativa nos eleitores dos grupos focais de pesquisas qualitativas que conduz. "Um certo ranço, uma certa preguiça, uma espécie de ressaca das eleições de 2018 e 2022", afirma.


"Não gosto de usar a palavra apatia, pois é um conceito muito ligado a indiferença, uma pessoa que não está nem aí com nada. Sinto que esse eleitor de hoje já se importou muito, em 18 e 22 houve um envolvimento grande, e tem uma parcela que ainda se importa, mas é como se ele tivesse cansado mesmo. Já teve aquele momento de engajamento e agora não quer se envolver mais."


Ao conduzir centenas de "qualis" (jargão para pesquisas com grupos de eleitores) nesta campanha, Carolina constatou o mesmo traço em diferentes estratos. "Em classe, idade, gênero, região, existe essa sensação em todos os perfis", diz ela, doutora em ciência política pelo Iesp/Uerj (Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro).


Pesquisa Datafolha divulgada nesta sexta-feira (2) mostra que o interesse na corrida eleitoral desde ano está dividido em relação a 2022. São 47% dos brasileiros que dizem que a sociedade está menos interessada agora que em relação ao ciclo anterior, ante 44% que declaram ver mais engajamento. Para 6%, o nível atual é o mesmo que há quatro anos, e 3% não souberam responder.


Seria a disputa eleitoral que chega à reta final do primeiro turno a mais chocha desde a redemocratização? Às evidências de que sim verificadas por pesquisas qualitativas e quantitativas, somam-se outros elementos, além da observação empírica de analistas e estudiosos.


"Tive a sorte de acompanhar as nove eleições presidenciais realizadas entre 1989 e 2022. Não me lembro de uma em que as pessoas conversassem tão pouco sobre política, nem de uma campanha de rua tão desanimada. Sinto que muita gente tem preferido mudar de assunto quando a conversa ruma para as eleições", escreveu o cientista político Jairo Nicolau na própria newsletter.


À reportagem Nicolau –professor e pesquisador do CPDOC/FGV– comentou possíveis causas dessa falta de interesse. Uma delas, diz, seria que Lula não entusiasma os lulistas tanto quanto em outras eleições, e Flávio Bolsonaro não mobiliza paixões como seu pai.


Ele observa ainda que muitos dos maiores partidos optaram por não lançar candidatos a presidente, priorizando usar as verbas do fundo partidário em candidaturas proporcionais, já que, com a cláusula de desempenho, é preciso eleger um número mínimo de deputados para ter acesso a recursos públicos e tempo de TV. "A gente tem uma eleição com uma oferta de candidatos muito pobre. O eleitorado não tem muitas opções."


O encurtamento das campanhas e a redução do tempo de propaganda de rádio e TV, às vezes apontados como causa de desengajamento, não são considerados por Nicolau porque não vêm de hoje, mas da minirreforma eleitoral de 2015.


Luciana Chong, diretora do Datafolha, concorda que a atual campanha é a menos mobilizada do passado recente do país. "Não lembro de uma eleição com um assunto paralelo de tão grande repercussão como agora –a crise do STF e o escândalo do Banco Master–, o que acaba contribuindo para esse desânimo. Divulgamos uma pesquisa recente sobre a perda de confiança nas instituições. Acho que, com tudo isso, as pessoas deixaram de pensar nas eleições."


Bruno Reis, professor do Departamento de Ciência Política da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), considera que as limitações de tempo de campanha e propaganda de rádio e TV e as restrições à propaganda de rua física e sonora impostas pela lei de 2015 devem ser associadas ao impulsionamento pago de propaganda eleitoral na internet, que passou a ser permitido em 2017.


"Então é para onde se dirigem as prioridades de investimento. Com algo bem impulsionado na internet, você alcança muito mais gente do que em propaganda de rua." Essa reviravolta criou gradativamente, analisa Reis, um plano mais íntimo de o eleitor administrar suas preferências políticas. Ele lembra a piada na qual duas amigas se encontram e falam sem amarras: uma comenta detalhes do divórcio recente, a outra dá detalhes de sua vida sexual. Até que uma delas pergunta: "E a política, o que tem achado?". É cortada abruptamente pela amiga: "Falar de intimidade não, né?!".


"Acaba que todo mundo", acrescenta Reis, "tem uma campanha no seu celular e, ainda que não produza conteúdo, eventualmente participa ao compartilhar umas coisas e outras não. Com o celular, cada um tem sua campanha, e não existe mais a experiência compartilhada de todo mundo estar vendo a mesma campanha [nas ruas]."


Outro aspecto apontado pelo professor da UFMG é o enfraquecimento de "organizações capazes de captar e mediar certa mobilização organizada que interpele o sistema político de maneira visível e estruturada". Refere-se a partidos, sindicatos, movimento estudantil, ONGs, igrejas etc.


"Não por acaso, as igrejas que continuam mantendo a sua capacidade de atuação organizada presencial vão ganhando centralidade. Mantêm uma influência desproporcional, talvez porque outras organizações foram esquecidas pelo caminho. Lamento, porque acho que a gente debilita o sistema político quando isso se perde."


Numa campanha em que não houve debate envolvendo todos os principais candidatos, também chamou a atenção a escassez (e mornidão) dos eventos de rua –com exceções na reta final, sobretudo alguns comícios de Lula no Nordeste.


Emerson Urizzi Cervi, professor de ciência política da UFPR (Universidade Federal do Paraná), opina que a explicação para a falta de mobilização em campanhas costuma estar na oposição, e que Flávio Bolsonaro não foi capaz de apresentar propostas, priorizando atacar Lula. "Isso funciona até certo ponto, é pregar para convertidos. A oposição não conseguiu esquentar a campanha."


Assim como Luciana Chong, Cervi aponta a queda acentuada no número de candidatos (30% a menos que em 2022, sobretudo concorrentes a deputado) como outro fator de menor mobilização. "É menos estímulo para o eleitor que não é militante ir à urna, porque muitos só votam para presidente porque têm um deputado em quem votar."


O professor da UFPR aposta que o enfado da campanha deve se refletir na ampliação da abstenção, mas não na de brancos e nulos. "O eleitor brasileiro mudou a forma de se relacionar com abstenção, percebeu que não participar não precisa ser votar nulo ou branco, pode ser simplesmente não ir votar."


Jairo Nicolau arrisca que o chamado "não voto" virá de outra fonte. "Nenhuma pesquisa consegue estimar abstenção. Mas, intuitivamente, acho que é mais provável a gente ter um crescimento maior de brancos e nulos, sobretudo de voto nulo, que na última eleição foi muito baixo."


Fabio Victor

Folha de São Paulo

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