Adriano Machado - 4.set.26/Reuters
- Onda Bolsonarista levou ao menos seis candidatos à vitória em 2018
- Na década anterior, o prestígio dos governos Lula foi o principal motor para reviravoltas nas urnas
Com disputas acirradas em todo o país, candidatos à Presidência e aos governos estaduais tentam usar a reta final da campanha das eleições 2026 para aumentar a distância sobre os adversários e melhorar seu desempenho na urna.
Pesquisas Quaest e Datafolha indicam que as eleições podem ser definidas já no primeiro turno em ao menos 14 unidades da federação.
Como acontece a cada dois anos, as urnas podem tanto consagrar os já favoritos como candidatos com baixas projeções iniciais, no fenômeno das zebras eleitorais.
No segundo caso, são candidatos com baixa intenção de voto inicial, que acabam favorecidos seja pelo clima político, pela força de padrinhos políticos ou por feitos que a população reconhece ao longo da campanha, entre outros fatores.
Levantamento feito pela Folha a partir dos registros do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e do histórico do Datafolha (criado em 1983) mostra que as grandes quebras de expectativa acompanham o país desde o início da redemocratização. Lembre algumas dessas zebras.
1989: De múltiplo empate a vitória de Collor
Ainda em 1989, ano da primeira eleição direta para presidente da República após a ditadura militar, o cenário contava com 22 candidatos na disputa no primeiro turno. Em meio a nomes da época, como Leonel Brizola (PDT), Paulo Maluf (PDS) e Mário Covas (PSDB), Fernando Collor (PRN) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) iniciaram as pesquisas de abril com números quase empatados, marcando, respectivamente, 14% e 12% das intenções de voto no Datafolha.
Estagnado na reta final, Lula não cresceu e perdeu sua primeira tentativa ao Planalto. Em disputa definida no segundo turno, Collor venceu com 53% dos votos.
1994: Virada de FHC com o Real
Em 1994, Fernando Henrique Cardoso (PSDB) foi o adversário de Lula em sua segunda tentativa de ascender ao poder. Em maio daquele ano, antes da implementação oficial do Plano Real, FHC aparecia com no máximo 20% das intenções de voto, contra Lula liderando com até 40%.
O real passou a circular em 1º de julho e as pesquisas começaram a mostrar que o tucano estava se aproximando. A partir de agosto daquele ano, FHC saltou para 45% e Lula caiu para 23%. Com a hiperinflação deixando de impactar o bolso dos consumidores, o tucano venceu no 1º turno com 54% dos votos válidos.
2010: Dilma surfa na popularidade de Lula
Em 2010, a ex-ministra Dilma Rousseff (PT), que nunca havia disputado um cargo eletivo, começou a corrida de abril com 29% das intenções de voto, bem atrás de José Serra (PSDB), com 40%.
Calcada na popularidade de Lula, que chegou a registrar 83% de aprovação naquele ano, a petista reverteu o cenário a partir de agosto e venceu no 2º turno com 56% dos votos válidos.
2012: Haddad passa de desconhecido a prefeito de SP
Em 2012, Fernando Haddad (PT) era um desconhecido do eleitorado paulistano, marcando apenas 14% em agosto.
Colado à imagem de Lula, construiu uma subida consistente e derrotou o favorito José Serra no segundo turno, desbancando o PSDB da capital com 55%.
Naquele ano, Lula ironizou o rótulo de "poste" dado a candidatos que ele havia lançado. "É de poste em poste que o Brasil vai ficar iluminado", disse em comício.
2014: Eleição no Ceará projeta Camilo Santana
Nas eleições estaduais de 2014, Camilo Santana (PT) tinha 19% em agosto contra 47% do favorito Eunício Oliveira (MDB).
Com o peso da legenda e das alianças locais com a família de Cid e Ciro Gomes, Camilo virou e ganhou o 2º turno com 53%.
2016: João Doria eleito na onda do antipetismo
Seja pelo lulismo ou pelo bolsonarismo, a associação ideológica cria um forte senso de comunidade. "As pessoas votam em um pacote: 'Esse candidato aqui é nosso'", afirma o cientista político e professor da Universidade Federal do Paraná Bruno Bolognesi.
Um exemplo de como esse pertencimento digital ocorreu na prática foi a eleição do ex-prefeito e ex-governador de São Paulo, João Doria. O ex-tucano lançou-se à Prefeitura da capital em 2016 embalado pela narrativa de "não político" e de "gestor"
Com apenas 5% de intenções de voto em agosto, Doria usou a estratégia digital a seu favor. Antes mesmo de despontar nas ruas, sua campanha produziu conteúdo segmentado para o Facebook, massificando a marca "João Trabalhador" para nichos específicos do eleitorado.
Ele usou a internet para amplificar o seu discurso e catalisar o antipetismo vigente. O resultado nas urnas: Doria ultrapassou todos os candidatos tradicionais e venceu no primeiro turno com 53% dos votos, retomando a prefeitura que estava sob o comando de Fernando Haddad e provando que a construção digital de um outsider havia se tornado a nova arma das eleições brasileiras.
2018: Eleição com mais zebras desde a redemocratização
Nas eleições de 2018, ao menos seis candidatos aos governos estaduais na lanterna das pesquisas de intenção de voto saíram vitoriosos.
O motivo dessas reviravoltas não foi o tempo de televisão ou a força de coligações partidárias, mas a associação direta à figura de Jair Bolsonaro, mesmo sem o presidenciável ter declarado apoio oficial no primeiro turno a nenhum desses candidatos de fora do seu partido, optando pela neutralidade nas disputas estaduais.
O atual pré-candidato à Presidência, Romeu Zema (Novo), protagonizou uma das maiores zebras em sua primeira disputa eleitoral ao governo de Minas Gerais. Na primeira pesquisa, em agosto de 2018, o empresário mineiro marcava apenas 5% das intenções de voto, enquanto seu principal adversário da etapa final, Antonio Anastasia (PSDB), liderava com 29%.
A virada ocorreu após o último debate na TV, dias antes do primeiro turno, quando Zema marcava 19% nas pesquisas. Em suas considerações finais, ele ligou sua imagem à figura de Jair Bolsonaro, contrariando a chapa do próprio partido, o Novo, que tinha João Amoêdo como candidato ao Planalto.
"Aqueles que querem mudança, com certeza, podem votar aí nos candidatos diferentes, que são o Amoêdo e o Bolsonaro", disse Zema na ocasião.
Ele avançou ao segundo turno com 42% dos votos válidos e venceu Anastasia com 71%. Durante a campanha para a etapa final, o mineiro foi ainda mais a fundo na adesão ao bolsonarismo, adotando o bordão "BolsoZema".
Ainda no mesmo ano, outros nomes com chances remotas de avançar ao segundo turno chegaram à vitória impulsionados pelo discurso antissistema e pela associação à imagem da família Bolsonaro. O ex-juiz federal Wilson Witzel (PSC) é outro exemplo: saltou de 3% nas pesquisas feitas em setembro para 59% dos votos válidos no Rio de Janeiro, vencendo o ex-prefeito carioca Eduardo Paes (DEM).
A campanha de Witzel decolou após um vídeo com o apoio do então candidato ao Senado, Flávio Bolsonaro, viralizar nas redes sociais, o colocando na liderança. Além do apoio, seus discursos focados no combate armado às organizações criminosas se assemelhavam à retórica de Jair Bolsonaro.
Como o UOL informou em 2018, a campanha de Witzel chegou a pagar um anúncio no Google que associava o ex-juiz ao sobrenome da família. Ao digitar "Bolsonaro" no buscador, o eleitor encontrava o link: "Bolsonaro apoia Witzel". Somente ao clicar, era possível ver que o apoio partia de Flávio, e não do pai.
Apesar de Jair Bolsonaro ter afirmado na época que se manteria neutro nas eleições estaduais (com exceção dos locais onde seu partido disputava o segundo turno), o eleitorado fez a associação por conta própria.
Outros candidatos até então desconhecidos do grande público viraram o cenário eleitoral absorvendo esse capital político, como Wilson Lima (PSC) no Amazonas, Carlos Moisés (PSL) em Santa Catarina, Coronel Marcos Rocha (PSL) em Rondônia e Antonio Denarium (PSL) em Roraima.
Para explicar o fenômeno de 2018, Bolognesi aponta a união de dois fatores: o sentimento de "antipolítica" (rejeição ao político tradicional) e o "voto útil".
À medida que o dia da votação se aproxima, o eleitor identifica os principais competidores e procura um nome viável para derrotar o candidato que rejeita. Nesse processo, a figura do ex-presidente atuou como catalisador.

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