terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

“Ele entendeu a minha dor”, afirma vítima de abuso recebida pelo Papa

 

                                            Foto: Vatican Media/IPA/Sipa USA via Reuters 

Passados 40 anos desde que foi abusado, David Ryan encontrou-se com Leão XIV e ressaltou acolhimento e empatia do Pontífice ao escutá-lo

Da Redação, com Vatican News


“Não foi culpa minha, mas culpa dos outros.” As palavras de David Ryan traduzem uma consciência que ele levou 40 anos para adquirir: a de que os abusos sofridos por ele e por seu irmão Mark quando eram crianças no Blackrock College, administrado pelos Missionários do Espírito Santo (Espiritanos) em Dublin, na Irlanda, não eram responsabilidade deles.


Quatro décadas depois, David encontrou-se com o Papa Leão XIV nesta segunda-feira, 2, no Vaticano (Mark não teve a oportunidade, pois faleceu em 2023). O encontro foi marcado por palavras de empatia, de proximidade e de pedido de desculpas para ele, para o irmão e para todas as vítimas da Igreja Católica na Irlanda.


Ao relatar à imprensa como foi o encontro, David não conteve a emoção. “Que experiência! Nunca vou esquecer, nunca, nunca, nunca”, expressou o irlandês, que definiu Leão XIV como um homem adorável, sincero e empático. “Ele entendeu a minha dor; mesmo não a tendo vivido, sabe quanta dor eu e minha família vivemos”, afirmou.


Segundo David, o Papa disse esperar que outras pessoas se manifestem sobre os abusos sofridos. “É isso que eu quero: que outras pessoas se manifestem”, exprimiu o irlandês, que junto ao irmão travou durante anos uma batalha em nome de todos os sobreviventes do Blackrock College e da escola primária Willow Park.


Denúncias na Irlanda

Cerca de 350 pessoas denunciaram abusos ocorridos dentro dessas instituições e em outras escolas também administradas pelos espiritanos, cometidos por religiosos e por funcionários leigos. Os fatos estão sendo investigados por uma comissão formal de inquérito, instituída pelo governo irlandês em setembro de 2024.


“Levei 40 anos para entender que não era culpa minha, mas culpa deles. Lutamos muito”, explicou David à imprensa. Ao Papa, contou tudo isso: “falei com ele sobre os abusos… Perguntei por que esses padres ainda fazem isso”. E garante ter percebido de Leão XIV a empatia pelos sobreviventes, pela família e pelos amigos mais próximos.


“Ele ficou triste”, relatou David. “Sei que foi sincero, foi gentil e respirou fundo várias vezes antes de responder a uma pergunta… Mas foi bom, muito bom. Estou muito feliz”, expressou. 


Acolhida às vítimas de abusos

Não é a primeira vez que Leão XIV recebe vítimas de abusos. Em outubro de 2025, o Pontífice concedeu audiência no Vaticano a seis membros do conselho diretor da ECA Global, uma associação internacional de direitos humanos que luta por maior apoio e por indenizações às pessoas que sofreram abusos e pede maior empenho e colaboração da Igreja Católica.


Em novembro, o Santo Padre reuniu-se com 15 pessoas provenientes da Bélgica, vítimas de abusos quando eram menores por parte de membros do clero. Ambos os encontros foram momentos para devolver proximidade e consolação a essas pessoas. Porque, como o próprio Pontífice afirmou no recente Consistório extraordinário, é “um escândalo” quando aqueles que sofreram abusos não se sentem acolhidos e acompanhados na Igreja.

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