sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Milhares protestam na Venezuela por eleições livres em primeiro ato da oposição em quase 2 anos

 

                                          Manifestante usa fantasia de Estátua da Liberdade, em Caracas, em protesto por eleições na Venezuela na quinta (22) - Federico Parra/AFP


  • Manifestantes pedem calendário eleitoral e libertação de presos políticos
  • Oposição negocia mudanças no sistema eleitoral com regime apoiado pelos EUA; María Corina não participa das conversas



Milhares de venezuelanos foram às ruas nesta quinta-feira (23) no primeiro protesto nacional da oposição em quase dois anos. Os manifestantes exigiram eleições livres e mudanças políticas, em um ato marcado pela presença reduzida das forças de segurança.


Os Estados Unidos vêm trabalhando em estreita colaboração com o regime da líder em exercício Delcy Rodríguez desde que forças americanas capturaram o ditador Nicolás Maduro, em janeiro. Tanto o presidente dos EUA, Donald Trump, quanto Delcy, ex-vice de Maduro, afirmaram que haverá eleições, mas ainda não definiram uma data.


María Corina Machado, líder oposicionista e vencedora do Prêmio Nobel da Paz, está fora do país há quase um ano, depois de passar um período escondida após a contestada eleição de 2024. Ela afirma que as eleições devem ocorrer até julho de 2027.


Seu movimento, o Vente Venezuela, organizou os protestos, realizados na capital, Caracas, e em outras cidades, incluindo Valência, Maracay, San Cristóbal e Maracaibo.


"Fico feliz de ver isso porque sei que a mudança é possível", disse a estudante de cosmetologia Leosmary Hernández, 18, enquanto se reunia com centenas de outras pessoas no norte de Maracay. "Passei por tantas dificuldades, tantos problemas por causa do dólar e dificuldades para estudar. Tenho muita esperança no meu país e em nossa próxima líder, a presidente María Corina."


"Já saí para protestar antes, quando as coisas eram muito mais difíceis, e hoje tenho ainda menos medo porque quero que minha voz seja ouvida", acrescentou, enquanto músicas tocavam e manifestantes agitavam bandeiras venezuelanas.


O regime, no poder desde 1999, primeiro sob Hugo Chávez e depois sob Maduro, já mobilizou forças de segurança contra manifestantes que denunciavam repressão política, inflação descontrolada, precariedade dos serviços públicos e outros problemas no país, economicamente devastado, inclusive após a eleição presidencial de 2024.


As forças de segurança tiveram presença mínima nos locais de protesto nesta quinta-feira e, em muitas cidades menores, os manifestantes se dispersaram antes do anoitecer.


O Partido Socialista governista convocou seus apoiadores para uma marcha a partir da Plaza Venezuela, em Caracas, o mesmo local onde a oposição planejava se reunir duas horas mais tarde. O ato oficial seguiu até uma área próxima ao palácio presidencial e teve como objetivo marcar o Mês de Conscientização sobre o Câncer de Mama.


O ministro do Interior, Diosdado Cabello, conhecido por seus estreitos vínculos com as forças de segurança, apareceu na televisão estatal participando da marcha, enquanto os opositores transferiram seu protesto para um local próximo.


Negociações continuam

As negociações apoiadas pelos EUA entre uma ala da oposição e a ditadura venezuelana, destinadas a reformular a Suprema Corte e o conselho eleitoral para garantir eleições justas no futuro, tiveram sua mais recente rodada neste mês.


As mudanças, porém, podem levar um tempo significativo. As negociações não incluem o movimento político de María Corina, embora ela tenha afirmado que não pretende impedir o avanço das conversas.


O candidato apoiado por María Corina venceu amplamente a eleição de 2024, segundo as atas de votação divulgadas pela oposição. O regime, que nunca apresentou a contagem completa dos votos, apoiou Maduro, assim como fizeram as instituições judiciais e eleitorais do país.


"Queremos eleições presidenciais agora. Queremos que um calendário eleitoral seja anunciado agora. Não vamos esperar até 2028", disse Maria Debora Marín, 57, dona de uma loja de roupas no centro de Valência, referindo-se a rumores de que as eleições só poderiam ocorrer no ano seguinte. "O que queremos é seguir em frente e finalmente sair desse pesadelo."


Em meio à prisão de alguns de seus aliados mais próximos, Corina passou a viver escondida. Sua última aparição pública na Venezuela ocorreu nos protestos que marcaram a terceira posse de Maduro, em janeiro de 2025, quando ela foi brevemente detida.


María Corina busca há anos o apoio dos EUA, alinhando-se a setores mais linha-dura da equipe de Trump que afirmavam que Maduro —por meio de vínculos com grupos de narcotráfico— representava uma ameaça direta à segurança nacional americana. Maduro e sua mulher, Cilia Flores, são acusados nos EUA de crimes relacionados ao tráfico de drogas e à tortura. Os dois se declararam inocentes.


Trump, porém, elogiou repetidamente a gestão de Delcy e sua disposição de receber investidores americanos. No mês passado, afirmou que ainda é cedo para considerar a realização de eleições.


O desejo de María Corina de voltar para casa, especialmente após os devastadores terremotos que atingiram o país em junho, provocou atritos em Washington. Segundo a Reuters, autoridades americanas pediram que ela adiasse a viagem.


"Estamos em um limbo", disse Rayeska Puesme, 18, recém-formada, durante o protesto em Caracas. Ela afirmou ter considerado deixar o país por causa da falta de oportunidades. "Os EUA eliminaram um grande problema, que era Maduro, mas o resto continua lá. Sinto no coração que as coisas vão mudar, mas não vejo quando."


Os manifestantes também pediam a libertação de presos que, segundo eles, são mantidos por razões políticas.


A organização de defesa dos direitos humanos Foro Penal, que representa opositores e outras pessoas detidas, muitas vezes sob acusações como traição, afirma que ainda há mais de 320 presos políticos na Venezuela, apesar das libertações ocorridas neste ano sob uma lei de anistia apoiada pelo Legislativo. O governo nega reiteradamente manter presos políticos e afirma que a anistia é ampla.

Reuters

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