Manifestantes e estudantes bloqueiam Museu do Louvre, em Paris -
- Premiê divulgará lista de cidades com restrições ainda nesta segunda; Marselha e Denain já adotaram medidas
- Macron reconhece falhas, rejeita renúncia de ministro do Interior e cobra revisão da segurança
Museu do Louvre, em Paris, ficou fechado nesta segunda-feira (19) por causa de um bloqueio de estudantes no local. Com a tensão crescente no país desde o fim de semana, o governo do primeiro-ministro Sébastien Lecornu pediu que prefeitos determinem toques de recolher para conter a onda de violência.
Mais de 500 mil foram às ruas contra a alta do custo de vida e a deterioração dos serviços públicos, e saques e incêndios se espalharam por diversas cidades francesas. Um manifestante morreu, quase 1.000 agentes de segurança foram feridos e cerca de 2.400 pessoas foram detidas.
"Pedi aos prefeitos que decretassem vários toques de recolher nesta noite", disse Lecornu. A lista de cidades deve ser divulgada ainda nesta segunda, após consultas entre representantes do governo e prefeitos.
Marselha, uma das cidades mais atingidas, proibiu aglomerações e manifestações entre meio-dia e 20h. Denain, perto da fronteira com a Bélgica, decretou toque de recolher noturno até domingo.
Lecornu descartou, por ora, decretar estado de emergência, como pediu Bruno Retailleau, líder do partido conservador Republicanos. Mas não afastou a possibilidade de implementar a medida caso seja necessário.
"Estou absolutamente determinado a restabelecer a ordem", acrescentou o premiê. "O estado de emergência continua sendo uma medida muito séria, inclusive em termos de sua implementação. Portanto, se for necessário, é claro que poderemos adotá-lo."
Segundo Lecornu, os toques de recolher são uma resposta mais adequada à situação atual.
A União Europeia afirmou que o direito ao protesto pacífico "deve ser protegido" na França, ao mesmo tempo que condenou como "inaceitáveis" os incêndios, saques e ataques ocorridos durante o fim de semana.
O movimento dos Coletes Amarelos anunciou planos para uma segunda rodada de manifestações no próximo sábado (24), batizada de "Ato 2". Os protestos começaram há cerca de quatro semanas, com estudantes do ensino médio reivindicando melhores condições de ensino, e viraram um movimento nacional por melhorias no país.
Nesta segunda, o presidente Emmanuel Macron reconheceu "falhas" na gestão policial dos protestos, ordenou uma revisão das medidas de segurança e pediu "novos modos operacionais" para pôr fim às barricadas e aos saques. Em pronunciamento à nação na noite de domingo, ele havia condenado a violência e afirmado que autoridades locais poderiam proibir manifestações, se necessário.
Macron também recusou o pedido de demissão apresentado pelo ministro do Interior, Laurent Nuñez, e cobrou explicações sobre as falhas de prevenção e inteligência que permitiram a escalada dos confrontos. O ministro admitiu que a polícia perdeu o controle em algumas cidades. Segundo ele, os cerca de 60 mil policiais e agentes mobilizados no sábado não foram suficientes para conter os grupos violentos.
Nuñez, ex-chefe da polícia de Paris, afirmou que as restrições não afetarão a partida entre Paris Saint-Germain e Barcelona, pela Liga dos Campeões, marcada para terça-feira (20) na capital.
O bloqueio do Louvre foi liderado por estudantes da École du Louvre, segundo a direção e os sindicatos do museu. "Devido às greves estudantis, o museu está fechado no momento. Pedimos desculpas pelo inconveniente", diz um anúncio no site da instituição cultural, que promete reembolsar os visitantes prejudicados.
Alunos também promoveram manifestações e bloqueios na universidade Sciences Po, no centro da capital.
Em cidades como Paris, Marselha e Lyon, manifestações inicialmente pacíficas desembocaram numa onda de violência liderada por grupos mascarados. Prédios públicos foram invadidos, uma prefeitura foi incendiada e várias lojas foram saqueadas. Carros, bicicletas e patinetes também foram queimados.
Mais de 2.000 lojas foram afetadas em todo o país, com prejuízos que podem chegar a "centenas de milhões de euros", segundo Alain Di Crescenzo, presidente da Câmara de Comércio. Na capital, cerca de 400 estabelecimentos foram depredados.
Os distúrbios na França eclodiram poucos meses antes de uma importante eleição presidencial, na qual Macron não poderá concorrer à reeleição e Marine Le Pen, líder da ultradireitista Reunião Nacional, aparece em posição de destaque nas pesquisas de intenção de voto.
Nesta segunda-feira, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu acusou a "ultraesquerda" de tentar "orquestrar uma profunda agitação em todo o país". Le Pen, por sua vez, afirmou que o partido de seu principal adversário na disputa, Jean-Luc Mélenchon, havia "legitimado a violência". Enquanto a esquerda acusa Macron de ignorar as reivindicações dos manifestantes, a direita cobra uma resposta mais firme do presidente.
Em artigo conjunto no jornal Libération, os prefeitos de Paris, Marselha e Lyon, todos de centro-esquerda, exigiram explicações do governo sobre a falta de preparo das forças de segurança. Disseram estar acostumados a protestos, "mas, no sábado, pela primeira vez, tivemos a sensação de que regiões inteiras de nossas cidades haviam sido deixadas sem proteção".
E acrescentaram: "Agora precisamos cuidar das feridas de nossas cidades e enfrentar a revolta de nossos moradores, estarrecidos com esse nível de violência".

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