Presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, durante evento da Febraban (Federação Brasileira de Bancos) em São Paulo -
- Índice de preços depois voltará a cair, mas não atingirá centro da meta (3%) até terceiro trimestre de 2028
- BC mantém projeção de crescimento do PIB de 2026 em 1,6%, mas vê risco com conflito geopolítico
O Banco Central projeta que a inflação do Brasil passará a subir até o fim de 2026 e, apesar da perspectiva de queda depois disso, seguirá acima da meta central de 3% até pelo menos o terceiro trimestre de 2028.
No relatório de política monetária, divulgado nesta quinta-feira (26), o BC elevou para 3,9% sua projeção de inflação para este ano, sobretudo pelo aumento dos preços do petróleo. No documento anterior, de dezembro de 2025, a estimativa era de 3,5%.
"[...] A inflação acumulada em quatro trimestres cai para 3,6% no primeiro trimestre de 2026. Depois, apresenta trajetória de alta, em boa medida advinda do aumento dos preços do petróleo, terminando 2026 em 3,9%. A partir de então, volta a cair, chegando a 3,1% no último período considerado, referente ao terceiro trimestre de 2028", disse a autoridade monetária.
O objetivo central perseguido pelo Banco Central é de 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. Isso significa que a meta é considerada cumprida se oscilar entre 1,5% (piso) e 4,5% (teto).
Entre os fatores que contribuíram para a alta das projeções de inflação, segundo o BC, destacam-se a elevação do preço do petróleo e a revisão do hiato do produto —quando esse indicador está mais positivo, significa que a economia opera acima do seu potencial e está sujeita a pressões inflacionárias.
A autarquia apontou também no documento que a probabilidade de o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) ultrapassar o limite superior da meta neste ano subiu de 23% para 30%. Já no caso do limite inferior, a chance caiu de 7% para 2%.
Isso, contudo, não reflete mais a probabilidade de descumprimento da meta de inflação. No modelo de avaliação contínua, o BC descumprirá o objetivo caso o IPCA se situe fora do intervalo de tolerância por seis meses consecutivos (em qualquer mês do ano).
A autoridade monetária manteve a projeção de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) para 2026 em 1,6%, mas mencionou que essa estimativa está sujeita a maior incerteza diante dos potenciais efeitos dos conflitos no Oriente Médio.
"Embora episódios de elevada tensão geopolítica sejam recorrentes, o novo conflito no Oriente Médio causou volatilidade, incerteza e aversão a risco nos mercados", afirmou.
"Os preços do petróleo, do gás e de outros produtos subiram e permaneceram instáveis desde o início do conflito. Se o trânsito pelo Estreito de Ormuz continuar interrompido por tempo prolongado, ou se o conflito ganhar contorno regional, o impacto sobre os preços e sobre a atividade econômica pode ser significativo e duradouro", acrescentou.
No relatório de política monetária, o BC disse também que a guerra eleva o grau de incerteza em torno de suas previsões. "Se prolongado, seus impactos predominantes, no país e no exterior, devem ser consistentes com um choque negativo de oferta, aumentando a inflação e reduzindo o crescimento, ainda que alguns setores da economia brasileira, especialmente o petrolífero, possam se beneficiar."
O BC tem uma avaliação para o desempenho da economia brasileira no ano mais pessimista do que as projeções tanto do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto do mercado financeiro.
Para este ano, a SPE (Secretaria de Política Econômica) do Ministério da Fazenda projeta um avanço do PIB de 2,3%, mesmo diante das incertezas provocadas pelo conflito no Oriente Médio. Os agentes econômicos, por sua vez, estimam um crescimento de 1,84%, conforme o boletim Focus divulgado na última segunda-feira (23).
"No cenário doméstico, o crescimento da atividade econômica continua em trajetória de moderação, enquanto o mercado de trabalho ainda mostra resiliência", disse o BC, ressaltando que o PIB cresceu 2,3% em 2025, abaixo do ritmo registrado entre 2021 e 2024.
Na apresentação dos dados, o diretor Paulo Picchetti, que chefia interinamente a área de Política Econômica, além de comandar a diretoria de Assuntos Internacionais e de Gestão de Riscos Corporativos, ressaltou que a desaceleração da economia mais acentuada em componentes mais sensíveis aos juros altos comprova a eficácia da política monetária.
Ele destacou também que, desde 2021, pela primeira vez o PIB não surpreendeu para cima em relação às expectativas.
O esfriamento da economia está associado ao ciclo da política de juros, como parte do trabalho do BC para frear a inflação. A taxa básica (Selic) foi alçada a 15% ao ano em junho de 2025 e ficou estacionada neste patamar até semana passada. No último dia 18, o Copom (Comitê de Política Monetária) reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,75% ao ano.
Em ata, o comitê afirmou que a duração e a intensidade do ciclo de cortes serão decididas ao longo do tempo. A ideia é ter mais clareza da profundidade e da extensão do conflito no Oriente Médio antes de definir quais serão os movimentos seguintes. A próxima reunião está marcada para 28 e 29 de abril.
No relatório, o BC revisou para cima a estimativa de crescimento do crédito no país neste ano para 9%, ante estimativa anterior de 8,6%. "Apesar dessa revisão, o resultado final ainda mostra tendência de desaceleração", afirmou Picchetti.
De acordo com a autarquia, essa mudança reflete principalmente a expectativa de desempenho mais robusto do crédito a pessoas físicas e do crédito a pessoas jurídicas com recursos direcionados.
Com relação às contas externas, o BC levou em consideração a perspectiva de continuidade da moderação da atividade econômica brasileira. O déficit em transações correntes passou de US$ 60 bilhões (2,4% do PIB) para US$ 58 bilhões (2,2% do PIB).
A projeção representa um déficit menor do que o observado em 2025, de US$ 69 bilhões (3% do PIB). A cifra é também inferior à previsão de ingresso líquido em IDP (investimento direto no país), de US$ 70 bilhões (2,7% do PIB). Na apresentação dos dados, o diretor do BC ressaltou que o déficit é coberto com folga pela entrada de investimentos diretos.
Folha de São Paulo

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