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Diagnóstico pouco conhecido, porém bastante prevalente, o hiperaldosteronismo primário (HAP) é uma forma de hipertensão arterial em que a origem é hormonal. A detecção é importante: os casos elevam de forma mais significativa os riscos de desfechos cardíacos graves e demandam um tratamento diferenciado. Por isso, a Endocrine Society, dos Estados Unidos, atualizou suas diretrizes internacionais sobre o tema indicando que todo paciente com hipertensão seja rastreado para HAP.
O documento foi apresentado de forma inédita no Brasil durante o Congresso Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia (CBAEM 2025), que acontece nesta semana em Gramado. Flavia Amanda Barbosa, coordenadora do Departamento de Adrenal e Hipertensão da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), explica que em muitos casos é um tipo de hipertensão que pode até mesmo ser curada:
— O HAP é uma causa muito frequente de pressão alta em que conseguimos curar na grande maioria das vezes quando é detectado em estágio precoce. É diferente da hipertensão comum, que não tem cura, apenas controlamos com anti-hipertensivos. E esse paciente tem mais risco de infarto, arritmia, AVCs, então fazendo esse diagnóstico e tratando tiramos ou diminuímos muito os riscos. Por isso, as novas diretrizes têm buscado ampliar a identificação dos pacientes.
De modo diferente da pressão alta convencional, que geralmente é resultado de fatores de risco como má alimentação, sedentarismo e tabagismo, nesses pacientes a causa é um problema nas glândulas suprarrenais, também conhecidas como adrenais, que ficam em cima dos dois rins e produzem um hormônio chamado aldosterona.
— O paciente pode ter um pequeno tumor, geralmente benigno, que leva a glândula a produzir a aldosterona em excesso. Isso pode acontecer em uma ou nas duas glândulas. Esse hormônio controla o sal do nosso corpo. E, quanto mais sódio (sal), maior é a pressão.
Estimativas apontam que cerca de 8% dos casos de hipertensão são devido ao HAP, o que corresponde a cerca de 4,2 milhões de brasileiros. Esse percentual pode chegar a ser de 16,2% entre hipertensos de 18 a 40 anos, e de quase 30% entre os pacientes cuja pressão é resistente aos anti-hipertensivos convencionais, segundo as novas diretrizes.
— A prevalência aumenta progressivamente de acordo com a gravidade da hipertensão arterial. Grande parte dos pacientes, porém, não tem o diagnóstico e, consequentemente, o tratamento correto. Mas é uma doença muito comum e que tem um tratamento específico capaz de reduzir os riscos — diz Madson Almeida, chefe do Laboratório de Endocrinologia Molecular e Celular LIM25 da Universidade de São Paulo (USP), diretor da Comissão Internacional da SBEM.
O HAP pode envolver um problema em uma das glândulas suprarrenais, chamado de unilateral, ou nas duas, classificado como bilateral. No primeiro, que representa cerca de 40% dos casos, o tratamento é cirúrgico e envolve a retirada da glândula, o que possibilita a cura da doença. Já no bilateral, que responde por 60% dos pacientes, é utilizado um anti-hipertensivo específico que atua contra a aldosterona, chamado de espironolactona, que está disponível no SUS.
— Quanto mais precoce, maior o potencial de cura. Mas como o diagnóstico é negligenciado, muitas vezes o paciente já chega com consequências da pressão alta, como infarto, uma doença cardíaca estabelecida, uma doença renal. A chance de cura da hipertensão nesses casos é menor, mas ainda assim o tratamento correto vai diminuir os riscos e facilitar o controle — diz Flavia.
O rastreamento indicado a todos com hipertensão arterial é feito com testes simples que dosam dois hormônios, a aldosterona e a renina. A partir daí, a depender dos resultados, o médico começa a investigar se é um caso de HAP. No entanto, a endocrinologista lembra que, especialmente na realidade do SUS, o acesso a esses métodos ainda é um entrave:
— Eles nem sempre estão disponíveis. E a investigação depois da triagem é mais específica, então demanda um serviço especializado, profissionais capacitados. Isso acaba às vezes inibindo que o próprio médico pense nesse diagnóstico. Mas ainda estamos no momento de lembrar que a doença existe, de os profissionais reconhecerem essa possibilidade do diagnóstico.
Um sinal de alerta de que um paciente com pressão alta pode ter HAP é a resistência aos anti-hipertensivos convencionais e, em casos em que a doença já está mais avançada, o desenvolvimento de quadros de hipocalemia (perda de potássio). Isso porque, com o acúmulo de sódio no corpo, o organismo passa a eliminar potássio em busca de equilíbrio.
A longo prazo, essa perda de potássio pode se manifestar com sintomas como muitas câimbras, fraqueza muscular, arritmias cardíacas, paralisia muscular, ou seja, também elevar os riscos desse paciente.
Em relação às causas do HAP, Flavia explica que a grande maioria são chamados de esporádicos, não têm uma origem conhecida. Mas há alguns considerados hereditários, em que um histórico na família aumenta a chance de o indivíduo ter a doença.
O repórter viajou a convite do Congresso Brasileiro de Atualização em Endocrinologia e Metabologia (CBAEM 2025).
Por
Bernardo Yoneshigue— Rio de Janeiro
O Globo

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