A síndrome dos ovários policísticos mudou de nome e agora se chama SOMP, mas o maior problema continua sendo o diagnóstico tardio; entenda os sinais que são ignorados e o que fazer.
Muitas mulheres passam anos tendo o seu ciclo menstrual irregular sendo tratado como estresse e sofrem as consequências disso. Acne, cansaço e dificuldade para perder peso são naturalizadas e atribuídas a fatores como rotina corrida.
Esse cenário ajudou a transformar uma das condições hormonais mais comuns entre mulheres em uma das mais subdiagnosticadas do mundo. E agora, especialistas acreditam que parte desse problema pode ter relação direta com o próprio nome da doença.
No dia 12 de maio de 2026, um consenso internacional publicado na revista científica The Lancet oficializou a mudança do nome da Síndrome dos Ovários Policísticos para SOMP, sigla para Síndrome da Overprodução Metabólica e Reprodutiva Policística.
A atualização foi resultado de um processo global que reuniu 56 organizações científicas, clínicas e grupos de pacientes de diferentes regiões do mundo, além de mais de 14 mil respostas em pesquisas internacionais.
O Brasil participou diretamente da discussão por meio da endocrinologista Poli Mara Spritzer, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e integrante do Global Name Change Consortium, grupo responsável pela mudança. Segundo especialistas envolvidos no consenso, o nome antigo ajudava a criar interpretações erradas sobre a síndrome e contribuía para diagnósticos tardios.
Por que a Síndrome dos Ovários Policísticos mudou de nome?
Durante décadas, o termo “ovários policísticos” fez muita gente acreditar que a condição era apenas um problema ginecológico ligado à presença de cistos nos ovários. Mas essa descrição nunca representou completamente o que acontece no organismo.
Na prática, muitas mulheres diagnosticadas com a síndrome sequer apresentam cistos visíveis no ultrassom. Ao mesmo tempo, outras podem ter ovários policísticos sem desenvolver a condição hormonal e metabólica associada à doença.
Essa confusão acabou criando um problema clínico importante. Segundo o consenso publicado na The Lancet, o nome antigo era considerado impreciso porque sugeria que os cistos fossem a causa central da síndrome, quando na verdade eles representam apenas uma possível manifestação do quadro.
Especialistas afirmam que essa interpretação limitada dificultava o reconhecimento da condição como uma doença sistêmica, ou seja, algo que afeta diferentes áreas do corpo além do sistema reprodutivo.
O impacto disso apareceu diretamente nos consultórios. Muitas mulheres ouviam que não tinham a síndrome porque o ultrassom não mostrava “cistos suficientes”. Outras recebiam tratamento fragmentado, focado apenas na menstruação irregular ou na fertilidade, sem investigação metabólica adequada.
De acordo com o artigo publicado na The Lancet, estima-se que até 70% das mulheres afetadas permaneçam sem diagnóstico.
O que a SOMP realmente é e o que ela afeta?
A nova nomenclatura busca justamente ampliar a compreensão da síndrome e mostrar que ela vai muito além dos ovários. A SOMP é uma condição hormonal e metabólica complexa que pode impactar diversas funções do organismo ao mesmo tempo.
Na prática, ela costuma alterar ciclos menstruais, estimular produção excessiva de hormônios androgênicos e afetar diretamente o metabolismo. Isso ajuda a explicar sintomas aparentemente desconectados que muitas mulheres enfrentam ao longo da vida.
Acne persistente, crescimento excessivo de pelos, queda de cabelo, dificuldade para emagrecer, resistência à insulina, fadiga constante, alterações no sono e oscilações emocionais podem estar relacionados à síndrome.
Além disso, o impacto psicológico vem ganhando cada vez mais atenção.
As mulheres com SOP apresentam risco aumentado para depressão, ansiedade, transtorno bipolar e transtorno obsessivo-compulsivo. Ainda assim, esse aspecto frequentemente acaba negligenciado porque a maior parte das consultas concentra atenção apenas na infertilidade ou na irregularidade menstrual.
Outro ponto importante é que a síndrome também pode aumentar risco cardiovascular e favorecer desenvolvimento de diabetes tipo 2 em parte das pacientes. Por isso, endocrinologistas vêm reforçando há anos que o tratamento não deve ser exclusivamente ginecológico.
Os sinais que merecem atenção e que costumam ser ignorados
Um dos maiores problemas envolvendo a SOMP é justamente o fato de seus sintomas serem frequentemente normalizados.
Muitas mulheres crescem ouvindo que menstruar de forma irregular “é comum”, principalmente na adolescência. O mesmo acontece com acne persistente, ganho de peso difícil de controlar ou alterações emocionais.
O resultado é que sinais importantes acabam sendo ignorados por anos. Entre os sintomas que merecem atenção estão:
Menstruação irregular ou ausência de ciclos
Acne resistente a tratamentos comuns
Crescimento excessivo de pelos
Queda de cabelo
Dificuldade para emagrecer
Cansaço frequente
Escurecimento da pele em regiões como pescoço e axilas
Resistência à insulina
Oscilações de humor
Nem toda mulher terá todos esses sintomas ao mesmo tempo. E justamente por isso o diagnóstico pode ser tão desafiador.
Algumas pacientes procuram dermatologistas por causa da acne. Outras vão ao ginecologista pela irregularidade menstrual. Há também quem procure endocrinologista por questões metabólicas sem perceber que tudo faz parte da mesma síndrome.
sinais da somp
Imagem: Seleções / Thyago Murad
Por que tantos casos demoram para ser diagnosticados
A mudança de nome aconteceu justamente porque especialistas acreditam que o termo antigo ajudava a limitar a visão clínica sobre a condição.
Segundo o artigo publicado na The Lancet, o termo SOP era impreciso por implicar presença de cistos ovarianos patológicos, obscurecendo diversas características endócrinas e metabólicas e contribuindo para diagnóstico tardio, atendimento fragmentado e estigma.
Na prática, isso significava que mulheres sem “cistos aparentes” muitas vezes saíam da consulta acreditando que não tinham a síndrome. Além disso, o foco excessivo nos ovários acabava reduzindo atenção sobre sintomas metabólicos e emocionais importantes.
Outro fator que contribui para o atraso é o fato de muitos sintomas serem tratados isoladamente.
A acne recebe tratamento dermatológico. A irregularidade menstrual vira apenas questão ginecológica. A dificuldade para emagrecer costuma ser interpretada como problema de hábitos de vida. Enquanto isso, a síndrome segue sem ser reconhecida como condição integrada.
O que muda na prática para quem já tem (ou suspeita ter) a síndrome
Apesar da mudança oficial no nome, especialistas reforçam que os critérios diagnósticos e os tratamentos atuais continuam os mesmos neste primeiro momento. A implementação da nova nomenclatura deve acontecer gradualmente ao longo dos próximos três anos.
Ou seja, mulheres que já possuem diagnóstico não precisarão mudar tratamento imediatamente por causa da alteração no nome. O principal objetivo da mudança é ampliar conscientização e melhorar reconhecimento precoce da síndrome.
A expectativa é que profissionais de saúde passem a enxergar a SOMP de maneira mais ampla, considerando não apenas questões reprodutivas, mas também metabólicas, emocionais e hormonais.
Isso também reforça a importância do tratamento multidisciplinar. Dependendo do caso, o acompanhamento pode envolver ginecologista, endocrinologista, nutricionista, dermatologista e até profissionais da saúde mental.
Que tipo de médico procurar e o que pedir na consulta
A investigação da SOMP pode começar tanto com o ginecologista quanto com o endocrinologista. O mais importante é relatar todos os sintomas, inclusive aqueles que muitas mulheres costumam considerar “não relacionados”. A recomendação é levar aos seus médicos informações sobre:
Frequência dos ciclos menstruais
Histórico de acne
Alterações de peso
Cansaço excessivo
Queda de cabelo
Crescimento de pelos
Manchas escuras na pele
Histórico familiar de diabetes ou síndrome hormonal
Também vale anotar sintomas emocionais e alterações de humor, já que eles podem fazer parte do quadro clínico.
Thyago Murad
Thyago Murad é jornalista, redator e podcaster, com atuação no site Seleções, onde desenvolve conteúdos voltados para saúde, beleza e bem-estar. Sua trajetória é marcada pela versatilidade editorial, explorando também temas relacionados a cultura, entretenimento e comportamento. Defensor da diversidade e da pluralidade, acredita que a informação de qualidade é um instrumento fundamental para transformar a sociedade.

Nenhum comentário:
Postar um comentário