quarta-feira, 25 de março de 2026

Fiscal de rendas morto por Bernal havia arrematado casa em leilão

 

                                            Foto: Reprodução




Roberto Carlos Mazzini, 61 anos, morto a tiros pelo ex-prefeito de Campo Grande, Alcides Bernal, na tarde desta terça-feira (24), era fiscal tributário da Secretaria de Estado de Fazenda, um dos cargos mais cobiçados do Executivo Estadual. 


Seu salário no começo de março foi de R$ 69,1 mil e desde 2008 atuava como fiscal concursado no Governo do Estado. Ele havia comprado, por pouco mais de R$ 2,4 milhões, a casa que pertencia a Bernal, na Rua Antônio Maria Coelho, na região central de Campo Grande, em um leilão judicial.


Atualmente o fiscal estava lotado em em um posto de atendimento da Sefaz na Acrisul, em Campo Grande. Conforme a informação inicial, Alcides Bernal fez pelo menos três disparos e dois deles atingiram o servidor público.


No interior do carro do fiscal, que estava próximo ao local do crime, foi encontrada uma notificação extrajudicial, datada de 20 de fevereiro deste ano, enviada por Carlos Mazzini, na qual o comprador estava dando prazo de 30 dias para que Bernal esvaziasse a casa e entregasse as chaves. A morte ocorreu quatro dias depois deste prazo final. 



Neste documento consta a informação de que a recusa de entrega acarretaria em um aluguel mensal equivalente a 1% do valor do imóvel. Este aluguel mensal, segundo Carlos Mazzini, seria de R$ 24.135,45, deixando claro que ele pagou mais de R$ 2,4 milhões no leilão realizado pela Caixa Econômica Federal.


Em um primeiro pregão, o imóvel foi ofertado por R$ 3,7 milhões, mas ninguém se interessou. Depois, o valor caiu e o fiscal tributário acabou comprando a mansão. 


Esta mesma notificação informa que o leilão foi adjudicado pela Caixa em abril de 2023 e que desde então ele tentava assumir a casa localiza em área nobre de Campo Grande e na qual o ex-prefeito já morou.


Socorristas ainda fizeram manobras de reanimação durante 25 minutos, mas ele acabou morrendo no local.  Logo depois dos disparos o ex-prefeito se apresentou na Depac Cepol, na região do bairro Tiradentes.  Roberto Carlos estava acompanhado de um chaveiro, que será testemunha-chave das investigações iniciais. 


EX-RADIALISTA

Radialista, Alcides Bernal foi vereador em Campo Grande durante dois mandatos em em 2010 elegeu-se para deputado estadual, com 20.910 votos, sendo o segundo mais bem votado. 


Em 2012 lançou campanha para prefeito de Campo Grande e acabou derrotando o então deputado federal Edson Girot, no segundo turno, com 62,55% dos votos válidos. Mas, em março de 2014 acabou sendo cassado pela câmara de vereadores, sendo o primeiro prefeito a sofrer a punição na história de Campo Grande. Seu vice, Gilmar Olarte, foi um dos principais articuladores da cassação e acabou herdando o cargo. 


Em maio daquele ano, um juiz de primeira instância suspendeu a cassação e concedeu liminar para a volta de Bernal ao cargo. Horas após a concessão, aliados marcharam rumo à prefeitura e a ocuparam o prédio. No entanto, a decisão foi revertida pelo Tribunal de Justiça horas depois, reempossando Gilmar Olarte no cargo.


Bernal somente conseguiu voltar ao cargo em 25 de agosto de 2015 e permanceceu no cargo até o fim do mandato. Ele chegou a se candidatar à reeleição, mas perdeu a disputa. 


NOTA DO SINDICATO

O sindicato que representa os servidores emitiu nota lamentando o assassinato.


"É com profunda consternação e indignação que recebemos a notícia do assassinato do nosso colega Roberto. Ele era um servidor dedicado, pai de família e, acima de tudo, uma pessoa honrada. Neste momento de dor, expressamos nossa solidariedade à família e a todos que tiveram o privilégio de conviver com ele. A perda deixa uma lacuna irreparável no seio da família e em toda a nossa categoria, que hoje se encontra enlutada."


NERI KASPARY, ALISON SILVA E FELIPE MACHADO

portal Correio do Estado


Mansão leiloada e dívida de IPTU marcam caso de assassinato envolvendo Bernal

 


                                           Reprodução / Correio do Estado


Sobre a mansão que foi pivô do assassinato do fiscal tributário Roberto Carlos Mazzini, de 61 anos, morto a tiros nesta terça-feira pelo ex-prefeito de Campo Grande Alcides Bernal, existe uma dívida de quase R$ 345 mil somente relativa a Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU). 


Mas, caso fosse obrigado a pagar este valor à prefeitura, o fiscal tributário que tentava tomar posse do imóvel tinha a esperança de receber em torno de R$ 850 mil do ex-prefeito a título  de alguel mensal de R$ 24,1 mil retroativo a abril de de 2023, quando a caixa tomou a casa de Alcides Bernal. 


O valor do IPTU é alto, R$ 344.923,14, porque a casa, uma construção antiga, tem área construída de quase 680 metros quadrados e está localizada em área nobre da cidade, em um terreno de 1,4 mil metros  quadrados. Um terreno convencional, de 12 metros por 30, tem 360 metros quadrados.


O assassinato aconteceu pouco antes das 14 horas desta terça-feira, na Rua Antônio Maria Coelho, na região central de Campo Grande. Bernal fez pelo menos três disparos e dois atingiram o fiscal. Conforme as informações iniciais, ele estava acompanhado com um cheveiro e teria entrado no imóvel para tomar posse. 



Embora a polícia ainda não tenha revelado o conteúdo do depoimento, Alcides Bernal alega que teria agido para se defender, pois o fiscal e o chaveiro teriam tentado agredí-lo. 


Segundo o delegado Oswaldo Meza, o caso foi registrado como homicídio simples e legítima defesa. Porém, o delegado afirmou que por enquanto não repassaria mais informações sobre o depoimento. 


Familiares do fiscal de rendas passaram boa parte da tarde desta terça-feira próximo ao local onde ocorreu o crime, mas nenhum falou com a imprensa para esclarecer a disputa pela posse da casa, arrematada em leilão por pouco mais de R$ 2,4 milhões. No primeiro leilão o imóvel chegou a ser ofertado por R$ 3,7 milhões, mas ninguém se interessou. 


Na caminhonete do fiscal tributário foi encontrada uma notificação extrajudicial datada de 20 de fevereiro dando prazo de 30 dias para que ele desocupasse a casa e entregasse as chaves. 


E, caso não fizesse isso, diz a notificação, ele teria que pagar aluguel mensal de R$ 24.135,45 retroativo a 14 de abril de 2023, totalizando quase R$ 850 mil. Porém, notificação extrajudicial não tem validade legal para obrigar Bernal a entregar as chaves e nem para obrigá-los a pagar os valores retroativos de aluguel. 


Roberto Carlos Mazzini tinha 61 anos e desde 2008 era consursa na Secretaria de Fazenda do Governo de Mato Grosso do Sul. No começo de março recebeu seu salário foi de R$ 69,1 mil. Atualmente ele estava lotado em um posto da Sefaz no interior da Acrisul. 


Formado em Direito, Alcides Bernal deixou o local do crime e se apresentou à polícia. O advogado de Bernal, Wilton Acosta, relatou que o ex-prefeito teria sido alertado pela empresa de segurança de que a casa teria sido invadida e por isso teria ido ao local.


Ao chegar, teria sido ameaçada pelo fiscal e mais duas pessoas e por isso teria feito os disparos. A arma é um revólver calibre 38 e, segundo o advogado, tem registro. Bernal, segundo ele, é CAC. 


E, conforme o advogado, o ex-prefeito ainda residia na mansão e por isso o caso foi registrado na delegacia como como legítima defesa. 


Ainda de acordo com o advogado, por ser formado em Direito, o ex-prefeito deve ficar preso durante a noite em uma sala especial no Comando da Polícia Militar. Nesta quarta-feira, acredita o advogado, Bernal deve passar por uma audiência de custória para saber se ele ficará ou não preso. 


CARREIRA POLÍTICA

 Alcides Bernal entrou na política por conta da popularidade que consegui como radialista. Ele foi vereador por dois mandatos e em 2010 conseguiu uma vaga na Assembleia Legislativa, sendo o segundo mais bem votado. 


Dois anos depois, em 2012, desbancou o candidato apoiado por políticos tradicionais como André Puccinelli e a família Trad, e derrotou Edson Giroto na disputa pela prefeitura de Campo Grande. 


Mas, em março de 2014 acabou sendo cassado pela câmara de vereadores, sendo o primeiro prefeito a sofrer a punição na história de Campo Grande. Seu vice, Gilmar Olarte, foi um dos principais articuladores da cassação. 


Em maio daquele ano, um juiz de primeira instância suspendeu a cassação e concedeu liminar para a volta de Bernal ao cargo. Horas após a concessão, aliados marcharam rumo à prefeitura e a ocuparam o prédio. No entanto, a decisão foi revertida pelo Tribunal de Justiça horas depois, reempossando Gilmar Olarte no cargo.


Bernal somente conseguiu voltar ao cargo em 25 de agosto de 2015 e permanceceu até o fim do mandato, 31 de dezembro de 2016. Ele chegou a se candidatar à reeleição, mas perdeu a disputa. Depois disso chegou a se candidatar novamente, mas não obteve sucesso. 


NERI KASPARY, ALISON SILVA E FELIPE MACHADO

com o Portal Correio do Estado

TRÊS LAGOAS Homem é sequestrado, torturado e sobrevive ao fingir estar morto

 



Um caso chocante de violência extrema foi registrado entre a noite do último sábado, dia 21 de março e a tarde de domingo, 22, no bairro Jupiá, em Três Lagoas, na região Leste de Mato Grosso do Sul, nas proximidades do chamado “campinho do bairro”.


Segundo relato da própria vítima, três homens invadiram sua residência durante a noite, o renderam e o sequestraram, levando-o à força para uma área de mata próxima ao local onde mora.


No ponto isolado, o homem foi brutalmente agredido, enforcado e amarrado. Segundo o site Rádio Caçula, diante da ameaça iminente de execução, tomou uma decisão desesperadora para sobreviver, onde fingiu estar morto para enganar os agressores.


Somente horas depois, já durante a tarde de domingo, ele conseguiu se libertar das amarras. Mesmo em estado crítico, se arrastou até o bairro Jupiá, onde finalmente conseguiu pedir ajuda. Durante o atendimento, a vítima contou que implorava por sua vida enquanto era atacada, repetindo frases como: “Não fui eu, não sei o que estão dizendo, eu juro”.


A Polícia Militar foi acionada e esteve no local, junto com uma equipe do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), que realizou os primeiros socorros e encaminhou o homem ao hospital.


As motivações do crime ainda são desconhecidas, mas há suspeitas de que o caso esteja ligado a um desentendimento anterior envolvendo um morador da região, situação que teria levado os suspeitos a agir com violência. O caso foi registrado como tentativa de homicídio na Polícia Civil. Até o momento, nenhum suspeito foi preso.

Produtor pode estar pagando 14% a mais sem perceber

 

                                            Foto: Pixabay


A decisão entre comprar insumos à vista ou a prazo tem impacto direto no custo de produção agrícola e exige atenção às condições financeiras envolvidas. Dados apresentados por Mauricio S., CEO da AEAGRO, indicam que a escolha deve ser analisada sob a ótica econômica, considerando taxas e disponibilidade de capital.



A análise de quase 7 mil operações de compra a prazo na safra 24/25 de soja no Mato Grosso aponta um padrão consistente nas condições de parcelamento. A taxa embutida nessas operações gira em torno de 1,2% ao mês, o equivalente a aproximadamente 14,4% ao ano, independentemente do prazo negociado. Isso significa que não há vantagem financeira em alongar o pagamento, já que o custo cresce proporcionalmente ao tempo.


Na prática, produtores que optam por prazos mais longos acabam pagando significativamente mais pelos insumos. Em operações com prazo de cerca de 300 dias, o valor final pode ser quase 14% superior em relação à compra à vista.


O levantamento também indica que a compra à vista tende a ser mais vantajosa quando o produtor possui capital de giro disponível e não consegue obter rendimentos superiores a essa taxa anual. O mesmo raciocínio se aplica a quem tem acesso a crédito rural com juros entre 8% e 12% ao ano, situação em que pode ser mais eficiente tomar o financiamento e quitar a compra à vista.



Outro dado relevante é a mudança no comportamento dos produtores. A participação das compras à vista caiu de 24% na safra 23/24 para 17% na safra 25/26, indicando maior adesão ao parcelamento. Esse movimento pode estar relacionado a margens mais pressionadas ou à redução do capital disponível, com reflexos diretos, ainda que pouco perceptíveis no curto prazo, sobre o custo total da produção.


Os dados completos sobre custos, produtividade e rentabilidade da safra 25/26 de soja no Brasil serão apresentados durante evento online marcado para o dia 31 de março.


terça-feira, 24 de março de 2026

Boi gordo e do “boi China” registram alta em São Paulo

 

                                             Foto: Divulgação 


Pará registra alta nas cotações do boi

A cotação do boi gordo e do chamado “boi China” registrou alta em São Paulo, segundo análise do informativo “Tem Boi na Linha”, divulgada na segunda-feira (24) pela Scot Consultoria. De acordo com o levantamento, “a cotação do boi gordo e a do ‘boi China’ subiu R$3,00/@”, enquanto os preços da vaca e da novilha permaneceram estáveis na comparação diária. O relatório aponta que a valorização foi sustentada pela menor oferta de animais e pela resistência de vendedores em negociar abaixo das referências, além do suporte das exportações, mesmo com ritmo menor de embarques. As escalas de abate atenderam, em média, a sete dias.



No Pará, o cenário também foi marcado por oferta restrita, levando frigoríficos a pagar mais pela arroba para completar as escalas. Em Marabá, “a cotação do boi gordo subiu R$3,00/@ e a da novilha R$2,00/@”, enquanto a vaca permaneceu estável, com escalas de abate em torno de quatro dias. Em Redenção, “a cotação da vaca subiu R$3,00/@, e a da novilha subiu R$5,00/@”, com estabilidade para o boi gordo e escalas médias de dois dias. Já em Paragominas, “a cotação subiu R$4,00/@ para todas as categorias”, com escalas de três dias. O “boi China” avançou R$4,00/@ em Paragominas e R$1,00/@ em Marabá e Redenção.



No mercado externo, as exportações de carne bovina in natura somaram 167 mil toneladas até a terceira semana de março, com média diária de 11,1 mil toneladas, o que representa recuo de 1,7% em relação ao mesmo período de 2025. Apesar da queda no volume embarcado, o preço médio da tonelada alcançou US$ 5,8 mil, alta de 18% na comparação anual.


Israel diz que Exército vai ocupar o sul do Líbano de novo

 

                                            Morador de Beirute passa pelas ruínas deixadas por ataque de Israel em Bshamoun, sul da cidade - AFP 

  • Ministro da Defesa afirma que moradores deslocados só voltam quando Estado judeu se sentir seguro

  • País controlou a região por 18 anos; debilitado, Hezbollah promete lutar contra o que chama de risco existencial




Enquanto o foco da guerra no Oriente Médio se desloca para o adiamento do ultimato de Donald Trump ao Irã e a relatos de que os Estados Unidos teriam enviado um plano de paz à teocracia via Paquistão, em outra frente Israel anunciou que irá ocupar militarmente o sul do Líbano mais uma vez, algo que fez de 1982 a 2000.


"As Forças de Defesa de Israel irão controlar as pontes remanescentes e a zona de segurança até o rio Litani", disse o ministro Israel Katz (Defesa) nesta terça-feira (24), colocando em palavras o que a prática no campo de batalha já desenhava.


"As cinco pontes usadas pelo Hezbollah foram destruídas" sobre o Litani, disse Katz. O rio marca o limite da zona de exclusão que havia sido consagrada pela resolução 1701 da ONU, que tratou do cessar-fogo da guerra de 2006 entre o grupo pró-Irã libanês e o Estado judeu.


Isso gera temores no Líbano de uma anexação definitiva por parte do vizinho, como defendem abertamente os partidos de direita religiosa que integram a coalizão de Binyamin Netanyahu —defensores da ideia de um Grande Israel, teoria expansionista que, em algumas correntes, prevê um país com fronteiras que vão do rio Nilo ao rio Eufrates.


O Hezbollah disse que irá combater a ocupação. "É um risco existencial para o Líbano como um Estado", disse o deputado Hassan Fadlallah à agência Reuters.


O território tem 850 km² (pouco mais que a área de Campinas, SP) e, no ponto mais ao norte, fica a 30 km de Israel. Na trégua estabelecida em 2024 entre os rivais após o Hezbollah atacar Israel em apoio ao Hamas na guerra pela Faixa de Gaza disparada pelos terroristas palestinos um ano antes, a área deveria ficar sob controle do Líbano.


Na prática, isso nunca aconteceu plenamente. O governo libanês quer retirar o controle militar histórico que o Hezbollah tem na região, mas não dispõe de força suficiente. E Israel, que deveria ter se retirado, manteve cinco pontos de controle e inúmeros ataques a posições rivais desde o cessar-fogo.


Nesta terça, em crítica a Israel, o presidente do Líbano, Joseph Aoun, disse que a guerra poderia ter sido evitada caso Tel Aviv tivesse se retirado das áreas ocupadas no sul libanês e cumprido o acordo de cessar-fogo que havia sido firmado em 2024.


Com a guerra declarada pelo Estado judeu e os Estados Unidos contra o Irã, no dia 28 de fevereiro, a situação desandou. Após titubear, o Hezbollah passou a lançar foguetes e drones contra os israelenses. Mediadores da Turquia, Egito e Paquistão tentam organizar uma reunião entre Washington e Teerã até quinta-feira (26), segundo o jornal The Wall Street Journal.


As forças de Tel Aviv, que já haviam dizimado a liderança do grupo libanês em 2024, voltaram à carga com pesados bombardeios que já deixaram mais de mil mortos no Líbano. Impotente, o governo local protestou, mas os soldados israelenses voltaram a operar no solo na zona-tampão. No país todo, mais de 800 mil foram deslocados.


Katz agora afirma que a região será controlada militarmente, ainda que não dê um prazo exato. Acerca dos 200 mil moradores da região, boa parte dos quais deixou suas casas rumo ao norte, ele voltou a dizer que eles só serão autorizados a voltar quando "a segurança do norte de Israel esteja garantida".



Ele não falou nada sobre a Unifil, a desdentada missão da ONU que em tese deveria ser a principal força no sul, ao lado do Exército libanês.


Enquanto o Hezbollah tiver capacidades, por mais degradadas que estejam, isso parece improvável. Na atual guerra, o grupo tem sido responsável por barragens diárias crescentes: no dia 22, o mais recente da contabilidade da Universidade de Tel Aviv, foram 85, ante 8 vindas do Irã.



A diferença é que a teocracia é mais precisa e perigosa, lançando mísseis balísticos que têm causado muitos estragos. A grande maioria dos lançamentos vindos do Líbano é de drones e foguetes sem guiagem, usualmente abatidos.


Não se viu desta vez o grande deslocamento de 2023, na esteira do ataque terrorista do Hamas, quando 65 mil habitantes do norte de Israel deixaram suas casas na faixa fronteiriça. Locais expostos como Kiryat Shmona seguem sua rotina, sob fogo diário.



Tudo isso soa como um filme repetido, e é, mas desta vez alguns analistas creem que o Hezbollah sairá derrotado de vez do conflito. O problema maior está no risco da fragmentação ainda maior da política libanesa, onde os xiitas que integram o grupo são uma força importante e a organização também é um partido.


As sombras do passado não vêm apenas da ocupação, mas também da guerra civil entre as diversas facções que destruiu o país de 1975 a 1990, com forte impacto da invasão israelense, que chegou às portas de Beirute. Na capital libanesa, os ataques prosseguiram nesta terça, onde ao menos duas pessoas morreram.


Igor Gielow

Folha de São Paulo

Câncer de colo do útero matou 20 mulheres por dia em 2025 no Brasil

 

                                            Folhapress


  • Ministério da Saúde diz que está substituindo o papanicolau pelo teste DNA-HPV, que é mais preciso

  • Desigualdade regional, atraso no rastreamento e barreiras de acesso mantêm doença mais frequente no Norte e Nordeste


"Isso era em 1980. Nós estamos em 2026. Nada mudou. Essa é a verdade." A declaração é da ginecologista Mônica Bandeira, que há 43 anos trabalha na prevenção ao câncer de colo do útero em Manaus, sobre o cenário da doença. Para ela, apesar de alguns avanços pontuais, o Brasil não conseguiu reduzir a incidência desses tumores, considerados quase 100% preveníveis com a vacina contra o HPV (papilomavírus humano).


No país, o câncer do colo do útero matou quase 20 mulheres por dia em 2025, com 7.249 óbitos no ano, segundo dados preliminares do Ministério da Saúde. Para o triênio 2026-2028, o Inca (Instituto Nacional de Câncer) estima 19,3 mil casos novos por ano, número superior ao triênio anterior (2023–2025), quando a estimativa era de 17 mil.


"A gente está num platô", diz Eduardo Cândido, ginecologista e presidente da Comissão Nacional Especializada em Ginecologia Oncológica da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia). "Não conseguimos diminuir a incidência."


Para especialistas ouvidos pela Folha, o problema central está no diagnóstico tardio por falha no rastreamento. Pesquisa do grupo da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e publicada em 2022 no International Journal of Gynecological Cancer mostrou que cerca de dois terços dos cânceres ginecológicos no Brasil são diagnosticados em estágios avançados.


Doença não atinge o país de forma uniforme

Segundo a estimativa do Inca para o triênio 2026-2028, nas regiões Norte e Nordeste, o câncer do colo do útero ocupa a segunda posição entre os tipos mais incidentes em mulheres, atrás apenas do câncer de mama. A taxa de incidência no Norte é de 22,79 casos por 100 mil mulheres, quase o dobro do Sudeste, de 14,06. No Amazonas, chega a 28,57, a mais alta do país.


"Há um abismo de políticas que deveriam ser direcionadas para os locais que precisam mais", diz Cândido.


A diferença entre os sistemas de saúde é igualmente visível, principalmente quando comparadas as regiões Norte e Nordeste com Sul e Sudeste. A oncologista Mariana Scaranti, do Hospital Nove de Julho, conta nos dedos as pacientes que recebem o diagnóstico em seu consultório privado em São Paulo.


"No privado, eu nunca tive uma paciente com odor forte", diz, referindo-se ao sinal clínico de tumor em necrose, indicativo de doença muito avançada. Em Manaus, porém, Bandeira diz que isso é frequente. "Se tiver uma paciente longe aqui da gente, lá na recepção, a gente já sente o cheiro. É muito forte", relata.


No Amazonas, Bandeira descreve um ciclo que se repete há décadas. Mulheres chegam ao hospital em estágio avançado, com tumores necrosados, hemorrágicos, muitas vezes já com insuficiência renal. No interior do estado, exames preventivos precisam ser enviados a Manaus para processamento e a demora chega a seis meses em alguns municípios, aponta a médica.


Novos métodos chegam, mas a desigualdade persiste

O Ministério da Saúde está substituindo gradualmente o Papanicolau pelo teste de DNA-HPV, que detecta diretamente o vírus nas células do colo do útero. A diferença de precisão é significativa. Enquanto o Papanicolau tem sensibilidade de 65% a 70%, o novo teste chega a quase 100%.


Um resultado negativo do teste de DNA-HPV também dispensa nova coleta por cinco anos. O Papanicolau precisa ser feito anualmente, o que se apresenta como mais um obstáculo para mulheres que moram em regiões mais afastadas dos centros, como no caso das ribeirinhas.


Sete estados do Brasil oferecem o exame pelo SUS (Sistema Único de Saúde): Pernambuco, Pará, Bahia, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Rio de Janeiro, seguindo a estratégia de implementação gradual adotada pelo Ministério da Saúde.


O Amazonas está "em fase de alinhamento e planejamento da implementação, considerando as especificidades territoriais", diz a pasta.


O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, disse à Folha na semana passada que a introdução do teste de DNA-HPV no SUS em 2025 é um avanço no país. Segundo ele, Norte e Nordeste foram as regiões prioritárias para a implementação. Quando questionado sobre o motivo de o único estado do Norte contemplado até agora ser o Pará, o ministro não respondeu diretamente, apenas repetiu que as duas regiões são prioridade do governo.


"A gente introduziu no ano passado em todas as regiões do país", disse, antes de confirmar, na sequência, que a expansão para todos os estados só deve se completar até o final de 2026.


O Governo do Amazonas afirma que o estado integra a iniciativa do Ministério da Saúde para fortalecer o rastreamento do câncer do colo do útero. Diz que está sendo implantado um projeto-piloto de rastreamento por DNA-HPV em 12 municípios, com meta de expandir o exame para todo o estado até o fim de 2026, atendendo mulheres de 25 a 64 anos.


No sistema suplementar de saúde, o teste de DNA-HPV já era rotina anos antes de chegar ao SUS. Segundo a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), os testes moleculares para detecção do HPV têm cobertura obrigatória desde 2008. "Duas pacientes que moram no mesmo país têm realidades diferentes de atendimento. Não é para acontecer isso", diz Scaranti.


Com o exame de DNA-HPV, também é possível realizar a autocoleta, que é adotada no SUS somente para algumas populações de difícil acesso, como comunidades ribeirinhas, indígenas e pessoas LGBTQIA+.


Especialistas destacam, no entanto, a importância de implementar a estratégia nas regiões do país com a maior incidência de casos, para melhorar rastreio e prevenção do câncer do colo do útero.


Para Bandeira, a autocoleta é especialmente relevante no Amazonas, onde mulheres de comunidades ribeirinhas chegam a levar dias de barco para chegar a Manaus. Reportagem da Folha mostrou no ano passado que pacientes com câncer no estado precisam fazer viagens de até oito dias para tratar um tumor em Manaus.


O Amazonas já testou a abordagem em 2015, quando Bandeira diz ter participado do primeiro estudo brasileiro, da Ufam (Universidade Federal do Amazonas), com dispositivo de autocoleta para HPV, testado em 412 mulheres de Coari, município acessível apenas por rio que fica a 370 km de Manaus. No estudo, o teste teve aceitação de quase 100%, e 94% das mulheres relataram não ter tido dificuldade para fazer o teste em casa.


Meta com a OMS

O Brasil se comprometeu com a OMS (Organização Mundial da Saúde) de eliminar o câncer do colo do útero como problema de saúde pública até 2030, o que implica vacinar 90% das meninas, rastrear 70% das mulheres e tratar 90% dos casos diagnosticados.


O HPV é responsável por quase 100% dos casos de câncer de colo de útero, segundo o Ministério da Saúde. A vacina contra o HPV é segura, eficaz e oferecida gratuitamente pelo SUS para meninas e meninos de 9 a 14 anos. Em 2025, a cobertura vacinal foi de 86% entre meninas e 74,4% entre meninos.


A cobertura vacinal retomou após anos de queda. Para Padilha, a mudança para dose única, validada por estudo publicado no New England Journal of Medicine, em dezembro de 2025, também contribuiu para ampliar a adesão.


O ministro da Saúde diz que o Brasil não vai desistir de perseguir a meta da OMS até 2030. Mas especialistas são cautelosos quanto ao prazo da meta com a OMS. "O impacto do aumento da cobertura vacinação a gente vai ver daqui a uma década, não agora", diz Scaranti. "Precisamos fazer essa lição de casa, com rastreio, diagnóstico precoce e vacinação, para que a tabela [de casos e óbitos], daqui a dez anos, seja totalmente diferente."


Laiz Menezes

Folha de São Paulo