sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Cirurgia metabólica ganha espaço no controle do diabetes tipo 2 e reduz uso de medicamentos

                                          Jaqueline Bispo Ramos Martinez, 35, desenvolveu diabetes gestacional na gravidez e, posteriormente, recebeu o diagnóstico de diabetes tipo 2; ela passou pela cirurgia metabólica e deixou de usar medicamentos para a doença - Arquivo Pessoal


  • Entenda como o procedimento altera o metabolismo e ajudar a prevenir complicações da doença

  • Operação pode levar à remissão do diabetes, mas acompanhamento médico é necessário


Por muito tempo, as cirurgias usadas no tratamento da obesidade também foram vistas como uma alternativa para pacientes com diabetes tipo 2. Hoje, o procedimento é reconhecido pelo efeito metabólico positivo que pode produzir, como melhora da glicemia e redução da necessidade de medicamentos. Os benefícios ocorrem antes mesmo de uma perda expressiva de peso.


Em 2025, o CFM (Conselho Federal de Medicina) atualizou as regras para cirurgias bariátrica e metabólica e ampliou as situações em que pacientes com diabetes podem ser indicados para o procedimento.


A diferença entre as duas abordagens está principalmente no objetivo do tratamento. A cirurgia bariátrica tem como foco o controle da obesidade, enquanto a metabólica considera também o impacto da operação sobre doenças associadas, como diabetes.


As técnicas utilizadas, porém, são as mesmas, principalmente o bypass gástrico em Y de Roux (cirurgia que reduz o tamanho do estômago e desvia parte do intestino para promover perda de peso e controle de doenças associadas) e o sleeve (ou gastrectomia vertical, cirurgia que remove cerca de 80% do estômago, transformando o órgão em um tubo estreito com capacidade para 100 ml).


Dados obtidos pela reportagem em conjunto com a SBCBM (Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica) apontam que o bypass representa 72.73% dos registros deste tipo de cirurgia no Brasil, desde 2020. Já o sleeve totaliza 34.91% no mesmo período.


A resolução do CFM também estabeleceu que pacientes com IMC (índice de massa corporal) entre 30 e 35 que apresentam diabetes tipo 2 estão aptos para o procedimento. Quando não há comorbidades, os pacientes devem ter IMC igual ou superior a 40.



"A melhora precoce do diabetes após a cirurgia é em grande parte guiada justamente pelo GLP-1", afirma Cláudia Schimidt, endocrinologista do Einstein Hospital Israelita. Segundo ela, depois do procedimento, os alimentos chegam mais rapidamente a regiões distais do intestino, aumentando a liberação do hormônio. A redução da ingestão calórica no período inicial também contribui para a melhora da glicemia.


O GLP-1 é um hormônio produzido naturalmente pelo intestino após as refeições que ajuda a controlar o açúcar no sangue e a sensação de saciedade. As canetas emagrecedoras são análogas do GLP-1, imitando sua ação.


O cirurgião-geral Marcos Leão Vilas Boas, ex-presidente da SBCBM, explica que a resposta hormonal ajuda a entender por que o diabetes pode melhorar poucos dias depois da operação, antes de uma perda significativa de peso. "As mesmas cirurgias que servem para o diabetes tratam a obesidade, fazem perder peso. Assim como as mesmas cirurgias que são utilizadas para perder peso, no caso a bariátrica, podem tratar o diabetes", afirma.


As evidências sobre a cirurgia metabólica vão além da perda de peso. Um dos estudos mais relevantes, o Stampede, publicado em 2017 no New England Journal of Medicine, acompanhou 150 pessoas com diabetes tipo 2 submetidas a tratamento médico intensivo, bypass gástrico em Y de Roux ou sleeve.


Após cinco anos, 29% dos pacientes que fizeram bypass e 23% dos que passaram pelo sleeve alcançaram hemoglobina glicada de até 6%, índice considerado controle glicêmico rigoroso, contra 5% no grupo tratado apenas clinicamente. Aproximadamente 89% dos pacientes dos grupos cirúrgicos não utilizavam insulina ao fim do acompanhamento.


A endocrinologista Cláudia Schimidt também ressalta que o resultado da cirurgia varia de acordo com o histórico da doença. Há quanto tempo a pessoa tem diabetes, o grau de descontrole da glicemia, a quantidade de medicamentos utilizada e a capacidade de perder peso influenciam a possibilidade de remissão.


"Não é uma indicação única e exclusivamente pelo IMC. A gente tem que entender todo o conjunto metabólico desse paciente, o quanto que a obesidade impacta a saúde dele e quais estratégias estão sendo usadas para controlar ou não a doença", afirma.


A trajetória de Jaqueline Bispo Ramos Martinez, 35, moradora de Salvador (BA), ilustra o que esses números representam na vida de uma paciente. Ela desenvolveu diabetes gestacional durante a gravidez do primeiro filho, há dez anos, e posteriormente recebeu o diagnóstico de diabetes tipo 2. Com histórico familiar da doença e obesidade, passou a enfrentar dificuldade crescente para controlar a glicemia.


Ela conta que chegou a pesar 109 kg antes do procedimento e atualmente está com 77 kg. Também deixou de usar medicamentos para diabetes. "Minha vida mudou. Tenho disposição, sou mãe de dois filhos, voltei a trabalhar, voltei a viver. Hoje não tomo nenhum remédio para diabetes", afirma.


Cirurgia na era das canetas emagrecedoras

A discussão sobre cirurgia metabólica ocorre paralelamente à expansão de medicamentos como semaglutida, princípio ativo do Ozempic, e tirzepatida, presente no Mounjaro. As duas substâncias atuam sobre mecanismos hormonais relacionados à glicemia e ao peso, mas por vias diferentes.


Para Arnaldo Nacarato, cirurgião do aparelho digestivo do Hospital Sírio-Libanês em Brasília, o avanço das medicações não torna a cirurgia ultrapassada.


"O tratamento medicamentoso e a cirurgia não são excludentes. A tendência é que eles coexistam, e a escolha deve considerar o perfil de cada paciente", afirma.



Remissão exige acompanhamento

A cirurgia pode levar à remissão do diabetes, mas isso não significa que a doença esteja definitivamente eliminada. A glicemia pode voltar a subir anos depois, especialmente em situações de reganho de peso ou progressão da própria doença.


"De fato, o diabetes pode deixar de estar presente de acordo com o tratamento, mas ele pode voltar depois ao longo da vida", explica Cláudia.


Para Marcos Leão Vilas Boas, o objetivo não deve ser limitado à ideia de cura. "É ótimo quando o paciente tem remissão plena ou cura, mas já é muito bom quando a gente tem um controle absoluto", afirma. A cirurgia bariátrica ou metabólica integra um tratamento multidisciplinar, e não deve ser entendida como um procedimento isolado.


Laís Seguin

Folha de São Paulo

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