segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Morre Paulo Roberto Teixeira, médico pioneiro no enfrentamento ao HIV e à Aids no Brasil

 

                                            O médico sanitarista Paulo Roberto Teixeira - Divulgação

  • Sanitarista liderou a criação do primeiro programa de combate à doença na América Latina, em São Paulo
  • Defendeu atendimento baseado na dignidade e nos direitos humanos e acesso universal ao tratamento


Morreu neste sábado (19), aos 77 anos, o médico sanitarista Paulo Roberto Teixeira, pioneiro na construção de políticas de saúde pública de enfrentamento ao HIV e à Aids no país. A causa da morte não foi divulgada.


Em 1983, Teixeira liderou a criação do primeiro programa de combate à Aids na América Latina, em São Paulo. Ele estabeleceu um modelo considerado inovador, baseado no atendimento especializado e no respeito aos direitos humanos e à dignidade dos pacientes.


Esses pilares foram fundamentais em um momento de incertezas científicas, pânico moral e estigmatização que marcaram o início da epidemia de HIV/Aids na década de 1980. A doença era associada principalmente a homens gays e bissexuais, o que reforçou o preconceito contra a população LGBTQIA+. A associação também alimentou a falsa ideia de que o vírus estaria restrito a determinados grupos, contribuindo para a marginalização de pessoas vivendo com HIV.


Nos anos 2000, Teixeira esteve à frente do Programa Nacional de DST/Aids do Ministério da Saúde e foi diretor do departamento de HIV/Aids da OMS (Organização Mundial da Saúde). Também atuou como consultor da OPAS (Organização Pan-Americana da Saúde).


O sanitarista foi um defensor do acesso universal ao tratamento. A oferta gratuita de medicamentos antirretrovirais se consolidou em 1996, com a lei que garantiu direito a tratamento para todos os pacientes pelo SUS (Sistema Único de Saúde).


O Ministério da Saúde publicou neste sábado uma nota de pesar pela morte de Teixeira.


"Sua trajetória contribuiu para fortalecer o SUS e assegurar a milhares de pessoas acesso ao cuidado e aos medicamentos antirretrovirais, além de promover uma abordagem pautada na ciência, no respeito e na garantia de direitos", diz o texto.


O Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) também se manifestou.


"A saúde pública brasileira e global perde um profissional admirável, um humanista incansável e um dos arquitetos fundamentais da resposta brasileira ao HIV/Aids", afirma a nota.


Profissionais de saúde lamentaram a morte do médico.


"Perde-se um grande médico humanista. É uma grande dor que estou sentindo no momento", disse o médico Táki Cordás, coordenador multidisciplinar do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, em vídeo publicado nas redes sociais.


Desde 1982, quando a epidemia de Aids chegou ao Brasil, 1,6 milhão de pessoas conviveram com o vírus do HIV no país.


Destes, 1,1 milhão de casos progrediram para Aids, segundo o DataSUS. Até o fim de 2024, 402 mil pessoas morreram em decorrência da doença.

Giovana Kebian

Folha de São Paulo

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