segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Retomada de terras expõe efeitos das dívidas no agro

 

                                           Retomada de imóveis e queda nas vendas de máquinas mostram efeitos na cadeia | Foto: Divulgação


Retomada de imóveis e queda nas vendas de máquinas mostram efeitos na cadeia

A alta da inadimplência no agronegócio amplia a pressão sobre o patrimônio dos produtores e os investimentos da cadeia. Segundo Felipe Treitinger, CEO e fundador da Cumbre, os atrasos passaram de cerca de R$ 2 bilhões há cinco anos para R$ 48 bilhões em junho de 2026. A taxa subiu de 0,54% para 5,63%, com R$ 29 bilhões concentrados entre produtores de alta renda.



O executivo afirma que o Banco do Brasil iniciou, em 2026, a retomada definitiva de mais de 130 imóveis rurais. Segundo ele, a alienação fiduciária passou de 3% para 63% dos contratos de grandes produtores entre duas safras consecutivas. Também cita a estruturação de imóveis rurais pelo Santander em um Fiagro de R$ 97 milhões.


Os reflexos alcançam o mercado de máquinas. Nos números apresentados por Treitinger, as vendas de colheitadeiras acumulam queda de 85% desde 2022, enquanto as de tratores recuaram 42%. A perda da capacidade de investimento afeta indústrias, revendas, fornecedores e prestadores de serviços.


“Olhando para os próximos meses, vejo um desafio que vai além da renegociação de dívidas. Precisaremos entender quanto dessas operações representa um problema temporário de liquidez e quanto revela negócios estruturalmente alavancados, que talvez não consigam se recuperar apenas alongando os pagamentos”, comenta.


Para o executivo, o desafio é distinguir dificuldades temporárias de caixa de operações com endividamento estruturalmente elevado, para as quais alongar pagamentos pode ser insuficiente. Ele ressalta que o patrimônio em terras não garante liquidez e que vendas sob pressão podem resultar em valores inferiores aos considerados na contratação do crédito.


“Porque, no fim, o maior risco talvez não seja o banco ficar com a terra. É descobrirmos que parte do crescimento dos últimos anos foi financiada por uma capacidade de pagamento que dependia de um cenário extraordinário de preços e margens”, conclui.


Por Leonardo Gottems

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