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- 'Fiscais de pace' expõem cultura de comparação na corrida
- Desqualificação online não representa o esporte, diz especialista
Você está muito devagar. Isso não é corrida." "Quando começar a correr, me avisa." As frases, deixadas como comentários em postagens da criadora de conteúdo Fernanda Pereira, sintetizam um fenômeno no universo dos corredores de rua: os "fiscais de pace".
A expressão é usada para descrever corredores que julgam o desempenho de outros a partir do ritmo que apresentam, em aplicativos como Strava, Garmin Connect ou em redes sociais como Threads, Instagram e TikTok.
Pace (pronuncia-se "peice") é um termo em inglês que significa "ritmo" e indica o tempo que o atleta leva para percorrer um quilômetro. Quanto menor o número, mais rápido o corredor é. Embora seja um parâmetro objetivo e útil para medir evolução e organizar treinos, também se transformou em instrumento de comparação social.
Pereira, 39, publica seus resultados na internet sem esconder seu "pace 10:00" —o que significa que ela leva cerca de 10 minutos por quilômetro percorrido (6 km/h), número que a torna alvo de críticas. Ela corre há dois anos, treina três vezes por semana, participa de provas amadoras e foi embaixadora da Maratona do Rio em 2025.
"Já ouvi de tudo sobre meu pace, inclusive pessoalmente, mas não me importo. [Com o esporte], minha saúde melhorou, minha ansiedade diminuiu e consegui evoluir de 100 metros para 10 km correndo. Tenho muito orgulho do meu pace 10."
Mari Bernal, 30, é analista de políticas públicas e tem experiência em meias maratonas, maratonas e trilhas. Quando se iniciou no esporte, em 2016, nem sabia o que era pace; corria apenas por prazer e pela autodescoberta. "Hoje, mesmo pessoas que não praticam corrida já conhecem o pace."
Bernal corre as provas em um ritmo de 4 minutos e meio por quilômetro (13,3 km/h) e, nos treinos, faz 7 minutos por quilômetro (8,5 km/h). Ela diz sentir a fiscalização nas redes, mesmo correndo em uma velocidade próxima da média. "As pessoas comparam treinos com provas, sem entender que se trata de uma estratégia de preparação para o meu objetivo. Dizem que eu escondo o jogo quando corro mais devagar."
Para Raquel Castanharo, fisioterapeuta à frente da clínica Viva a Corrida e do canal de mesmo nome, a prática dos "fiscais de pace" parece inofensiva, mas não é. Segundo ela, esse tipo de pressão leva corredores a buscar ritmos incompatíveis com sua condição física, aumentando o risco de lesões. Ela avalia também que o excesso de julgamento pode desestimular quem mais precisa se movimentar.
O sedentarismo é um dos principais fatores de risco para doenças cardiovasculares. Em 2023, o DataSUS registrou 388 mil óbitos por elas, que são a principal causa de morte no Brasil. "É muito difícil levar uma população sedentária a praticar atividade física. Quando alguém decide começar a correr e encontra um ambiente que questiona se você é um corredor de verdade, isso afasta em vez de incentivar", diz ela.
Castanharo afirma que o valor da corrida não deveria estar apenas no pace. O esporte está relacionado à identidade e a significados individuais. Ela, por exemplo, ressalta a importância da corrida para seu tratamento oncológico.
"Correr me ajuda a viver mais e melhor, a reduzir chances de um novo câncer e a cuidar do bem-estar. Meu pace pode ser considerado ruim por alguns, mas me mantém saudável."
Para Mabliny Thuany, doutora em ciências do esporte, professora da Universidade do Estado do Pará e membro da Sociedade Brasileira de Atividade Física e Saúde, o "fiscal de pace" se insere no contexto da cultura competitiva da corrida e está relacionado à lógica de performance e status.
Thuany, porém, sublinha que fenômenos da internet como esse são apenas um recorte da realidade. "Comportamentos de desqualificação online não representam a corrida como um todo, que tem cada vez mais adeptos e traz inúmeros benefícios. Em eventos presenciais, a atmosfera não costuma permitir esse tipo de atrito, embora situações isoladas possam ocorrer."
Ela conta que muitas pessoas começam a praticar o esporte motivadas pela saúde ou pela socialização, mas, à medida que percebem avanços, podem orientar-se para a performance.
Thuany também observa que a valorização do pace individual, como principal resultado, vige no contexto da corrida, em que os atletas tendem a compartilhar hábitos e rotinas impulsionados pelo interesse comum na atividade ou por outras afinidades. "Isso desvaloriza a comparação consigo mesmo e valoriza a comparação entre participantes".
Ela ressalta que o pace continua sendo um marcador objetivo e útil. "O monitoramento, muitas vezes com o uso de relógios específicos, permite que cada corredor acompanhe suas próprias mudanças e progressos", conclui Thuany.
Em provas, o pace individual é uma informação relevante e frequentemente solicitada em provas grandes, servindo até como nota de corte. Essa métrica contribui para que o evento seja mais organizado, seguro e justo para todos os participantes.
Pace médio do homem, por distância
5k 4:46
10k 5:10
21k 5:07
42k 4:48
Pace médio da mulher, por distância
5k 6:07
10k 6:08
21k 5:40
42k 5:48
Fonte: Running Pace Percentile Values for Brazilian Non-Professional Road Runners, revista Healthcare (2021). Os valores apresentados correspondem à média dos percentis da "Tabela 3" do estudo.
Esta reportagem foi produzida durante o 10º Programa de Treinamento em Jornalismo de Saúde da Folha, patrocinado pelo Laboratório Roche e pelo Einstein Hospital Israelita..

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