Um show de música pop pode ser indicado a melhor musical no prêmio Tony, do teatro? Esta pergunta foi feita repetidamente na noite desta sexta-feira, no Madison Square Garden, onde Lady Gaga apresentou a sua teatral e espetacular turnê "Mayhem Ball", uma extravagância cheia de hits que ela apresentará outras cinco vezes nesse mesmo local.
"Vocês podem perceber que sou mesmo daqui", disse cantora nova-iorquina de 39 anos para a plateia lotada, visivelmente emocionada. "Tudo sobre a minha arte nasceu nessa cidade."
Uma apresentação de seu álbum mais recente, o nostálgico e cativante "Mayhem", o set de quase 2 horas e meia traçou conexões nítidas entre o passado e o presente de Gaga, demonstrando uma significativa evolução no refinamento do espetáculo que ela faz. O show "Mayhem Ball" é um momento culminante da sua carreira de quase duas décadas —Lady Gaga finalmente se consolida como uma artista do ao vivo no auge dos poderes.
Os números são elaborados. Gaga se envolve em travessuras com um esqueleto na roqueira "Perfect Celebrity", e depois emerge trêmula de um lençol branco no início de "Bad Romance". Parecia estar se divertindo mais do que esteve nos últimos anos.
Hoje é quase obrigatório que um show pop seja dividido em atos, estruturado como uma jornada épica. Durante o "Mayhem Ball", Gaga se entrega tanto a essa grandiosidade quanto brinca com ela. Antes de ela chegar, uma imagem pré-gravada da estrela pairava sobre o cenário. O subtítulo do show logo surgiu na tela: "A Arte do Caos Pessoal".
Antes de uma vigorosa interpretação de "Poker Face", um dos hinos pop de 2008, Gaga foi confrontada no palco por uma sósia vestida como ela costumava se vestir naqueles dias: coberta de renda, com o rosto oculto, e uma coroa pontiaguda e imperial. "Ugh", disse a Gaga de verdade com um revirar de olhos.
Essa teatralidade serve para lembrar a vida cada vez mais ocupada de Gaga fora da música. Desde que recebeu uma indicação ao Oscar por sua estreia no cinema com "Nasce Uma Estrela", de 2018, ela provou ser uma presença convincente nas telas e continuou a perseguir a carreira de atriz.
Esta mudança poderia ter feito ela diminuir o ritmo do estrelato musical. Mas seu show atual mostra como Gaga aprendeu a incorporar todas as suas diversas forças como artista em uma única experiência de palco, combinando um impressionante canto ao vivo com coreografia cinética, habilidades genuínas de atuação e um senso de "timing" cômico.
O primeiro ato do show foi o mais impressionante: uma sobrecarga sensorial implacável de cores ardentes e surpresas visuais que traçou conexões estilísticas entre algumas das melhores faixas de "Mayhem" com o material mais pesado do álbum "Born This Way", de 2011.
Abrindo com "Bloody Mary", faixa menos conhecida que ganhou impulso há três anos por causa da série "Wandinha", Gaga emergiu do centro do palco com notas agudas. Sua saia massiva se abriu para revelar uma gaiola abrigando sete dançarinos prontos para dançarem a coreografia frenética do seu hit mais recente, a contagiante "Abracadabra".
"Paparazzi", de 2009, foi transformada em uma linda balada de piano, um destaque do segundo ato, com foco apenas em Gaga, a cauda do vestido ondulando atrás dela. Quando a artista chegou à borda do palco, o tecido foi iluminado como um arco-íris —a primeira de várias referências à sua devotada base de fãs LGBTQIA+.
"Born This Way", tomada como hino dessa comunidade, soou jubilosa e atingiu com força o público, especialmente por causa deste momento de retrocessos em relação aos direitos LGBTQIA+.
Gaga cantou músicas de todos os seus álbuns, exceto do "Chromatica", o disco de música eletrônica dançante que ela lançou há cinco anos. Na maior parte do tempo, a banda enfatizou os elementos de rock do som de Gaga —às vezes de forma um pouco insistente demais, como sempre que ela parava para tocar uma guitarra elétrica aparentemente supérflua.
Mas para um show repleto de excessos implacáveis, é impressionante que grande parte deles funcione. Exemplos são a música "Zombieboy", cantada com o visual do filme "Os Fantasmas se Divertem, a encenação novelesca de "Alejandro", e até os momentos à la Andrew Lloyd Webber, quando baladas como "Shallow" se transformam em duetos de Gaga com seu alter ego.
Ainda assim, como sempre, Gaga sabia quando reduzir o maximalismo para forjar uma conexão direta com os fãs. Perto do final, ela se acomodou em um piano posicionado na borda da passarela e apresentou uma interpretação solo de seu hit com Bruno Mars "Die With a Smile", lançado no ano passado, junto de "Hair", uma canção honesta e feita para a Broadway, que ela cantou somente neste show de Nova York.
Mesmo com sua extravagante artificialidade, um dos momentos mais memoráveis do Mayhem Ball foi o mais despojado. Durante o que foi menos um bis do que uma sequência pós-créditos, uma câmera mostrou a estrela nos bastidores removendo sua maquiagem. Cantava a borbulhante "How Bad Do U Want Me", de "Mayhem", e andava pelos corredores labirínticos sob o palco, reunindo dançarinos pelo caminho.
Ainda cantando a plenos pulmões, e usando uma jaqueta com "Born This Way" estampado nas costas, ela e sua trupe vieram à tona para uma última reverência triunfante enquanto "Heavy Metal Lover" tocava nos alto-falantes. Gaga mostrou que era realmente dali, não apenas de Nova York, mas do palco, e que não queria ir embora.

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