quarta-feira, 29 de abril de 2026

Fed mantém juros nos EUA entre 3,5% e 3,75%, e alerta para alta da inflação e efeitos da guerra com Irã

 

                                           Jerome Powell, presidente do Fed, concede entrevista em Washington - Brendan Smialowski - 18.mar.26/AFP

  • Reunião foi a última antes de acabar o mandato de Jerome Powell na presidência; Trump já indicou seu sucessor

  • Decisão do Fed foi aprovada por 8 votos a 4, maior divergência desde outubro de 1992



O Fed (Federal Reserve, o BC dos EUA) anunciou nesta quarta-feira (29) a manutenção da taxa de juros entre 3,5% e 3,75% na última reunião de Jerome Powell como presidente do órgão. O mandato dele termina em 15 de maio e o presidente dos EUA, Donald Trump, indicou Kevin Warsh como seu substituto. O nome ainda precisa ser aprovado pelo Senado.


É a terceira reunião consecutiva que os juros são mantidos, apesar da pressão feita por Trump para a redução da taxa. O Fed manteve a taxa devido à preocupação com os efeitos da guerra no Irã, que gerou aumento generalizado de preços em todo o mundo.


Em comunicado, o FOMC (Comitê Federal de Mercado Aberto) disse que "os desdobramentos no Oriente Médio estão contribuindo para um alto nível de incerteza sobre as perspectivas econômicas".


Os EUA enfrentam uma disparada no preço da gasolina, que atingiu nessa terça-feira (28) o seu maior valor em quatro anos, e viram a inflação acelerar 0,9% em março, maior aumento desde junho de 2022, e atingir o acumulado de 3,3% em 12 meses. Para o FOMC, a "inflação está elevada".


Com isso, a queda no desemprego para 4,3% em março não foi suficiente para convencer os diretores do Fed a alterarem os juros, resultado que já era esperado por analistas.


Porém a manutenção foi aprovada por 8 votos a 4, a maior divergência no comitê desde 6 de outubro de 1992. Stephen Miran, indicado por Trump, queria a redução em 0,25 ponto percentual, enquanto Beth Hammack, Neel Kashkari e Lorie Logan não foram favoráveis ao viés de flexibilização adotado pelo comitê.


No comunicado, o FOMC afirmou que estará "preparado para ajustar a postura da política monetária conforme apropriado, caso surjam riscos que possam impedir o alcance das metas do comitê", decisão esta que foi recusada por três dos participantes. O FOMC voltou a defender a busca pelo "pleno emprego" e pela meta da inflação de 2%.


A reunião encerrada nesta quarta é a última sob a gestão de Powell, que foi indicado por Trump em seu primeiro mandato e sucedeu Janet Yellen como chefe do Fed em fevereiro de 2018. Ele herdou uma economia com inflação abaixo da meta de 2%, uma taxa de desemprego de 4,1% e sinais de que o crescimento econômico estava ganhando força após anos de desempenho mediano.


Na ocasião, os cortes de impostos de Trump proporcionaram impulso fiscal e novas tarifas de importação que aumentaram o risco de alta de preços. Sob a gestão de Powell, o Fed passou a aumentar os juros de forma gradual, o que irritou Trump que defendia as taxas mais baixas.


A MUDANÇA COM A COVID

Qualquer discussão sobre o histórico de Powell inevitavelmente é centrado na pandemia. A resposta do Fed, iniciada no começo de 2020, pode ser vista tanto como uma aventura imprudente quanto como um sucesso histórico ao evitar o que muitos pensavam que poderia ser uma segunda Grande Depressão.


Powell viu esse momento como uma oportunidade de assumir riscos na esperança de evitar o pior. Ele endossou esforços do Congresso e do governo Trump para apoiar uma economia instável com inundações de dinheiro, levou a taxa básica de juros rapidamente para nível próximo de zero, apoiou compras de trilhões de dólares em títulos pelo banco central e, em consulta com o Tesouro, lançou uma série de programas de empréstimos do Fed que ele reconheceu que foram além de um banco central convencional.


"Ultrapassamos muitas linhas vermelhas", disse Powell durante um evento na Universidade de Princeton em maio de 2020. "Esta é a situação em que você faz isso e depois entende como funciona."


No auge da pandemia, o Fed reformulou sua estratégia com base no que parecia ser uma visão sólida da década anterior: taxas de desemprego baixas poderiam ajudar os trabalhadores a aumentar seus salários e sua renda sem provocar inflação.


"Um mercado de trabalho robusto pode ser sustentado sem causar um surto de inflação", disse Powell em agosto de 2020 ao anunciar que o Fed não iria, como no passado, agir antecipadamente contra a inflação só porque o mercado de trabalho parecia "apertado".


Quando a inflação acelerou em 2021, Powell e outros a descartaram como "transitória" —palavra da qual ele veio a se arrepender— e depois se apressaram em aumentar os juros em 2022, quando a inflação atingiu o maior nível em 40 anos.



CRÍTICAS DE TRUMP E INVESTIGAÇÃO

Os aumentos dos juros planejados por Powell vieram com uma nova ênfase mais sóbria. Dois anos depois de supervisionar essa mudança de política monetária que priorizava o emprego, ele usou o mesmo fórum na conferência anual do Fed em Jackson Hole, Wyoming, para alertar que os aumentos de juros "trariam alguma dor" por meio de um crescimento mais lento e emprego mais fraco.


Economistas e formuladores de política monetária do Fed ainda discordam sobre muitos dos princípios básicos daquela época. O banco central acabou desfazendo as mudanças na estratégia de 2020, mas ainda não se sabe se elas influenciaram a inflação.


Powell conseguiu contornar uma desaceleração econômica e sua era como chefe do Fed registrou a menor taxa média mensal de desemprego, de 4,6%. Por outro lado, a média da inflação foi mais alta, de 3,09%, mais de um ponto percentual acima da meta do Fed.


Para fins de comparação, isso representa um ponto percentual inteiro a menos na média de desemprego e cerca de 0,6 ponto percentual a mais na média de inflação do que a observada durante o mandato de Alan Greenspan no comando do Fed.


Nomeado para um segundo mandato como chefe do Fed por Joe Biden, no final de 2021, Powell termina seu mandato novamente sob críticas de Trump, que desta vez incluiu um esforço para demitir Lisa Cook, diretora do Fed, e uma investigação criminal de Powell que foi aberta pelo Departamento de Justiça no final de 2025 e encerrada na semana passada.


As duas tentativas fracassaram, mas Trump manteve os ataques ao presidente do Fed, chamando-o de "estúpido", "imbecil" e "idiota". A ameaça mais recente foi exigir a sua saída da autarquia financeira após o fim do mandato. Powell, porém, deve permanecer como integrante da diretoria do Fed.

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