sexta-feira, 1 de maio de 2026

Operação em SP mira clínicas de tratamento para autistas por suspeita de fraudes

 

                                            Polícia Civil realiza operação contra fraude em clínicas de tratamento de crianças com TEA (Transtorno do Espectro Autista) - Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo 

  • Associação de planos de saúde estima que os prejuízos podem chegar a R$ 60 milhões

  • Esquema envolve laudos falsos, simulação de atendimentos e ações judiciais para obter reembolsos indevidos



A Polícia Civil de São Paulo deflagrou nesta quinta-feira (30) uma operação para desmantelar um esquema criminoso de fraudes contra planos de saúde que envolvia clínicas de atendimento a crianças com TEA (Transtorno do Espectro Autista). Ao todo, a polícia cumpriu 12 mandados de busca e apreensão na capital paulista, em Barueri e Mogi das Cruzes, na região metropolitana, e em Jacareí, no interior do estado.


Dos 12 mandados, cinco foram em clínicas e os demais nas residências dos proprietários, onde a polícia apreendeu documentos. A investigação aponta que o grupo simulava atendimentos, emitia laudos médicos falsos e entrava com ações judiciais para obrigar as operadoras de saúde a cobrirem procedimentos inexistentes ou superfaturados.


Segundo o delegado responsável pela investigação Fúlvio Mecca, da 2ª Delegacia contra Crimes de Estelionato e Crimes contra a Fé Pública, as clínicas conseguiam liminares para que famílias de baixa renda com planos básicos tivessem acesso ao tratamento de TEA. Segundo o relato de uma operadora, o esquema envolvia um médico suspeito de emitir laudos contestando a carga horária de atendimento, alegando que ela era insuficiente.


"A criança fazia anteriormente duas horas por semana de atendimento, aí o médico atestava que eram necessárias 60 horas. Mas continuavam sendo feitas duas horas, as demais 58 eram cobradas sem que a criança fizesse o tratamento", afirma Mecca.


O delegado ainda não sabe se havia um médico específico envolvido no esquema. Ele também diz que a polícia ainda avaliará o material apreendido para confirmar as suspeitas da investigação.


Além do impacto financeiro, a apuração destaca o dano ao direito das crianças, que teriam sido submetidas a diagnósticos indevidos e intervenções terapêuticas inadequadas. A Polícia Civil afirma que o esquema violou princípios fundamentais de proteção e boa-fé.


Mecca diz que ao menos 18 mães de crianças atendidas pelas clínicas foram ouvidas e que todas disseram que assinaram papéis sem olhar quantas horas de atendimento estavam descritas nas fichas. Em relação à qualidade do atendimento, o delegado afirma que não houve nenhuma queixa. Não há estimativa de quantas famílias teriam sido afetadas pelo esquema de fraude.


A investigação ainda não revelou como esses atendimentos eram feitos. Porém, segundo a neuropsicóloga Sylvia Ciasca, professora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), o diagnóstico de um transtorno do desenvolvimento não é algo trivial e implica acompanhamento de mais de um profissional de saúde. "Se isso não acontece, pode prejudicar ainda mais a criança."


Ciasca afirma que, normalmente, diagnósticos e intervenções são feitos tardiamente, o que por si só já traz prejuízo. Se além de tardia, a intervenção for inadequada, o prejuízo é ainda maior, tanto para a criança como para a família, diz a especialista.


Eventuais casos de diagnóstico indevido também são graves, diz Ciasca. "Não se brinca com diagnósticos, principalmente com crianças, que estão em desenvolvimento."


"Hoje se faz muito diagnóstico e muito diagnóstico inadequado. Crianças que às vezes têm determinados sinais significativos de uma disfunção ou de uma patologia não são diagnosticadas, e crianças que às vezes não têm absolutamente nada são diagnosticadas de forma errônea", acrescenta.



Em nota, a associação Autistas Brasil repudiou as práticas identificadas pela investigação e pediu a responsabilização rigorosa dos envolvidos.


"Para a Autistas Brasil, o caso não é isolado e evidencia um problema estrutural mais amplo: a atuação de clínicas que operam à margem da ciência, oferecendo tratamentos sem comprovação de eficácia e, em muitos casos, potencialmente prejudiciais ao desenvolvimento de pessoas autistas", diz a associação, fundada e liderada por pessoas autistas para atuar na formulação de políticas públicas.


A Abramge (Associação Brasileira de Planos de Saúde) estima que os prejuízos podem chegar a R$ 60 milhões. Em nota, a entidade defendeu a apuração "rigorosa dos fatos e o fortalecimento de mecanismos de controle e prevenção, como forma de proteger os beneficiários e garantir que os recursos da saúde sejam aplicados corretamente."


A Operação Desentendimento é conduzida pela 2ª Delegacia da DIG (Divisão de Investigações Gerais) do Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais) e investiga crimes de estelionato e contra a fé pública. Cerca de 40 policiais civis participam da ação.


Luana LisboaGiulia PeruzzoFolha de São Paulo

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